Fortalecido internamente pelo supremo líder religioso Ali Khamenei e pelos antigos colegas da Guarda Revolucionária, o presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad parece pouco preocupado com seu isolamento internacional. Sua última reação foi comparar o presidente Barak Obama ao antecessor George W. Bush, adiantando que não faz sentido manter o diálogo com o governo norte-americano a menos que esse país formule um pedido oficial de desculpas pela interferência nas questões internas iranianas.
Desde o início da crise no país oriental, analistas de política internacional têm escrito que o presidente Barak Obama sempre se mostrou cauteloso nas suas observações, evitando críticas mais acerbas ao comportamento de Ahmadinejad, visando a distensão do relacionamento diplomático com a República Islâmica. Na última quarta-feira, no entanto, o presidente norte-americano declarou sentir-se indignado pela violenta repressão contra os manifestantes nas ruas de Teerã.
O mesmo sentimento foi manifestado anteontem pelo G8, o grupo de países mais desenvolvidos do mundo, que em nota pública lamentou os episódios violentos ocorridos desde as eleições presidenciais que apontaram a reeleição do atual presidente. A nota entregue aos meios de comunicação ao final do encontro dos ministros de Relações Exteriores do bloco, na cidade italiana de Trieste, afirma que a organização deplora a perda de vidas de civis iranianos, além de instar o governo “a respeitar os direitos humanos fundamentais incluindo a liberdade de expressão”.
A saída convencional utilizada pelo governo do Irã para mascarar a gravidade da situação derivada das denúncias de fraudes nas eleições presidenciais, é responsabilizar os Estados Unidos, Reino Unido e Israel pelo estímulo às manifestações populares de desagrado com o resultado das urnas. Com o controle absoluto do aparelho de Estado e a aprovação maciça de milhões de partidários, Ahmadinejad também conta com o apoio do aiatolá Ali Khamenei e o pronunciamento favorável do Conselho dos Guardiões que mesmo reconhecendo arranhões pontuais no processo eleitoral (mais votos que eleitores inscritos em algumas seções), não os considerou relevantes a ponto de admitir a convocação de novo pleito. Por isso busca garrotear as manifestações da população contrária.
O núcleo pétreo de apoio ao presidente é formado por umas 50 pessoas de sua extrema confiança, distribuídas em postos ministeriais, na administração provincial e nas agências de segurança. A maioria teve participação ativa na guerra contra o Iraque, a partir da qual adquiriu uma visão de mundo conservadora, profundamente marcada pela religião islâmica, mas um crescente desprezo à liderança clerical. A nova elite governamental do Irã tratou de entregar as concessões para a construção de obras públicas às empresas vinculadas aos membros da Guarda Revolucionária, facilitando o surgimento de um grupo de bilionários no país.
No meio desse fogo cruzado destaca-se a figura do opositor Mir Hossein Mousavi, que em nome de grande parte da população luta pela anulação das eleições que deram a vitória a Ahmadinejad. Mousavi tem denunciado em sua página na web a pressão feita pelas autoridades para que desista de protestar. A resposta do líder da oposição é clara: “Estou disposto a demonstrar que os delinquentes eleitorais estão ao lado dos principais responsáveis pelos distúrbios”. Para os analistas, as palavras de Mousavi se referem diretamente à voz corrente de que a violência percebida nos protestos não é obra dos manifestantes, na maioria pacíficos, mas de pessoas sem uniforme identificadas como basiyís, integrantes da milícia comprometida com a intransigente defesa do regime islâmico.
A República Islâmica do Irã, estabelecida há 30 anos, enfrenta seu maior desafio ao escancarar as profundas divisões entre as elites dirigentes, incluindo as mais respeitadas autoridades religiosas, que divergem abertamente. O risco do recrudescimento da violência é uma espada de Dâmocles sobre a antiga Pérsia.