Ivan Schmidt
O general Garrastazu Médici, presidente da República pela vontade do estamento militar nutrido por disciplinado raciocínio jurídico disponível à época – é sempre assim – produziu declaração insofismável até hoje válida para quaisquer dos brasileiros chegados à chefia do governo: ?A economia vai bem, mas o povo vai mal?.
Depois de Médici, a revolução ainda colocaria dois generais na presidência, Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo. Sarney ganhou por tabela no colégio eleitoral e só agora a muitos ocorre que sua eleição pode ter sido duas vezes indireta: além de não ter recebido um escasso voto, assumiu o governo mercê de uma filigrana ainda agora contestada por gregos e goianos. Pelo voto direto chegaram lá Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
De todos, talvez o que mais pode repercutir o chavão do general abespinhado ao contemplar a miséria nordestina, até hoje intacta, é o presidente atual. Os chamados indicadores econômicos estão muitíssimo bem: arrecadação e superávit primário batendo recordes, taxas de juros altíssimas, aperto fiscal, inflação em queda e salários comprimidos. Fico por aqui, pois não sendo economista daqui a pouco me enveredo por terreno perigoso e começo a soltar batatadas. O pouco que sublinho é assunto diário de todos os jornais.
Na contramão do sucesso no plano macroeconômico, ainda segundo especialistas, quase todos ex-ministros ou altos funcionários do governo hoje consultores de empresa, estão milhões de empregados ganhando salário de fome, milhões de desempregados, entre eles um formidável exército de jovens de 18 a 25 anos, muitos deles pagando o mico de, no exterior, comer o pão que o diabo amassou – vide a sofrível qualidade de vida da maioria dos dekasseguis de Nagóia -, além da quantidade absurda de empresas e trabalhadores na informalidade.
E os governos, já que a situação passa de um para outro, na repetição da emblemática fórmula milagrosa do gestor público brasileiro, de empurrar com a barriga até a eleição seguinte, não se apercebem (acredite se quiser) da fundura que o fosso da exclusão social adquire cada vez com maior rapidez. Não há um projeto destinado a amenizar o drama da falta de oportunidades, da odiosa discriminação da competitividade de araque, onde o maior esmaga o menor como se fosse um inseto, aliás, deletéria e isolada lição absorvida da vulgata neoliberal.
O governo Lula, até esse momento, foi incapaz de enviar ao Congresso exígua réstia de vida inteligente na concepção de seus projetos, mesmo dispondo de base de apoio suficiente para aprová-los. Se tivesse feito desse modo, o próprio Congresso assumiria a responsabilidade de atuar em prol do desenvolvimento, pois seus componentes lá estão para dar respostas positivas a seus eleitores, e mais, seriam cobrados com certeza. Ao contrário, o governo perdeu quase todas as disputas no âmbito parlamentar, desde a eleição de Severino Cavalcanti à instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), para investigar a suspeita de corrupção nos Correios.
Situação, no mínimo desconcertante para um governo construído sobre o alicerce da probidade administrativa e transparência política. É angustioso ver o presidente e seguidores autorizados a multiplicar seu pensamento, passando à opinião pública a bisonha imagem da indignação e brios feridos ante acusações pendentes sobre Henrique Meirelles, Romero Jucá e Roberto Jefferson. Jamais se viu tal obrigatoriedade exercida a favor de governadores e prefeitos do PT, pelo fato notório e consabido das pouquíssimas irregularidades apontadas nessas administrações, de resto, sempre visadas pela imprensa investigativa. O rumoroso caso Lubeca foi uma armação malsucedida e a tentativa de envolver o prefeito assassinado Celso Daniel em negociatas com empresários do ABC, tudo leva a crer ter sido configurada como uma trama destinada a jogar lama sobre a memória do ex-prefeito.
Sacrificar o histórico lembrado por nove entre dez eleitores é mau negócio para o presidente Lula, se o risco calculado é incinerar parte da reputação em troca da frente política de 2002, da qual alguns componentes começam a liberar fluidos de deterioração.
É doloroso supor que Lula prefira classificar como interlocutores preferenciais Roberto Jefferson, Fernando Bezerra, Renan Calheiros e Severino Cavalcanti, abrindo mão da contribuição lúcida de patriotas de escol como Antônio Cândido, Francisco de Oliveira, Aziz Ab?Saber, Luiz Pinguelli Rosa, Eduardo Suplicy, Tarso Genro e Cláudio Fonteles, entre outros.
O verdadeiro estofo do governo Lula será posto à prova na CPMI dos Correios, quando se poderá observar se os orgulhosos milicianos da ética são tão eficientes na defesa quanto no ataque.
Ivan Schmidt é jornalista.