Albino de Brito Freire

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Diz que o padre chegou mais cedo na sacristia e ouviu barulho estranho, vindo do alto das prateleiras, por entre as cortinas. Só podia ser ladrão. Foi logo perguntando:

– Alguém aí?

Nada.

– Tem alguém aí? Se não responder, vou começar a atirar…

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– Calma, seu padre. Tamo aqui pra lhe proteger…

– Quem são vocês? Indagou o sacerdote.

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– Nóis é dois anjo enviados por Deus, Nosso Senhor.

– Ah, é? Sorriu o padre. Então podem sair voando daí!

– Avoar, nóis ainda num sabe: nóis é fiote…

Dia após dia, na televisão, estamos nos acostumando a ouvir histórias semelhantes, ao vivo, envolvendo suas excelências, nossos ilustres representantes no Legislativo e no Executivo. São mentiras deslavadas, quase pueris, até mesmo hilariantes, que agridem nossa inteligência e afrontam o bom senso.

A todo instante, pipocam negociatas, fraudes, sonegação, corrupção, o diabo! Nunca se viu tanta patifaria junta! Nunca se viu tamanha voracidade pelo vil metal. Os pulhas não se contentam em roubar pouco, não! Têm de ser milhões de reais, milhões de dólares, para garantir vida de nababo até a enésima geração de sua estirpe. Pensam que caixão de defunto tem gavetas…

Parecem, agora, ratazanas atordoadas sob o efeito de raticidas, carregando seus dinheiros para cá e para lá, em todas as direções, em malas, malotes e maletas. Todos eles têm uma história para contar, tentando explicar o inexplicável.

Querem se passar por ?filhotes? indefesos e inocentes, quando não passam de abutres bem crescidos e envelhecidos nos hábitos da rapina; são velhas raposas, doutorandas e mestras na arte das negociatas e trambiques de toda a ordem.

Dia desses, li, na Veja, artigo do Diogo Mainardes, em que ele propõe uma ampla reforma política, enxugando-se drasticamente a máquina do Executivo e do Legislativo. É claro, diz ele, que os ladrões continuariam roubando. Só que teríamos menos ladrões.

É engraçado como, no depoimento perante a CPI, suas excelências, num primeiro momento, negam peremptoriamente tudo. Logo depois, comparecem dispostos a ?cooperar? com as investigações. Despejam então, na cara do povo brasileiro, novas mentiras, agora um pouco melhor ensaiadas, novas histórias malcontadas por inocentes filhotes… de corvos!

Por Zeus! Até quando vamos ter de aturar esses crápulas no governo, roubando à larga e zombando de todos nós, cidadãos honrados e trabalhadores?

Albino de Brito Freire é juiz de Direito aposentado, membro da Academia Paranaense de Letras.