Enquanto na zona do euro as autoridades financeiras continuam desenrolando o infindável novelo de lamúrias, admitindo que a recessão tem maior força que a imaginada anteriormente pelos céticos mais empedernidos, o ministro Guido Mantega (Fazenda) afirmou que o Brasil não está mais no fundo do poço, mesmo diante das proverbiais volatilidades do cenário econômico. Mantega reconheceu as dificuldades do primeiro trimestre, mas acentuou que o segundo será de retomada, com o Produto Interno Bruto (PIB) voltando a aquecer as turbinas: “O terceiro trimestre vem ainda mais forte, e o quarto fechamos com uma alta muito boa. Acredito que fechamos o ano em torno de 0 a 2% positivos”.

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O fato é que o governo brasileiro sempre teve uma visão otimista diante da crise financeira internacional, apesar da sucessão de más notícias oriundas do setor industrial e dos reflexos imediatos sobre o mercado de trabalho e a movimentação geral do comércio. Não foram poucas as ocasiões em que a equipe econômica tratou de amenizar sombrios prognósticos sobre a retração da economia brasileira formulados por instituições do porte do Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), bem como do próprio mercado. O FMI estimou uma retração de 1,6%, a Cepal falou em 1%, ao passo que o mercado se contentou com a previsão mais amena de 0,44% de recuo econômico em 2009.

Menos mal que o ministro Guido Mantega chegue a pensar que o crescimento da economia brasileira no exercício atual poderá ser igual a zero. A bem dizer, no cenário mundial um baque dessa proporção seria absorvido com facilidade, tendo em vista que as economias mais desenvolvidas do planeta estão se precavendo para enfrentar números negativos de até 4%.

É louvável, portanto, o bom senso do ministro da Fazenda em tornar pública a forma mais indicada para identificar o rol de dificuldades que ainda precisa ser contornado. Isso não quer dizer, porém, que o governo esteja abrindo mão da expectativa oficial de 2% para o crescimento do Produto Interno Bruto em 2009, parâmetro fixado para as projeções de arrecadação do sistema tributário e do contingenciamento dos gastos públicos durante o exercício.

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Para algumas consultorias a redução do PIB do primeiro trimestre deverá chegar a 1,5% em relação ao último trimestre do ano passado. Sendo a segunda retração consecutiva estará configurado o que se denomina de recessão técnica, ou seja, dois trimestres seguidos sem crescimento da economia. A lenta retomada do ritmo da produção industrial, na visão dos analistas, segue como o principal motivo do baixo crescimento da economia. A previsão para o crescimento da produção industrial nos primeiros três meses do ano era de 10%, mas os números indicam que a expansão não ultrapassou o percentual de 4,8%. Sabe-se que a débil reação se deveu ao acúmulo de estoques na maioria dos setores industriais, o que reforça o raciocínio elementar de que somente haverá aumento do ritmo de produção quando os depósitos começarem a esvaziar.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiep) constatou pequeno avanço na indústria de transformação, em abril, com a abertura de 19 mil vagas, mesmo que a evolução tenha sido menor que um ponto percentual no confronto com o resultado do mês anterior. Entretanto, como a abertura de novos postos de trabalho tem-se mantido em quantidade estável, a entidade acredita que o ritmo da retração já perdeu a intensidade inicial. Um dos diretores da Fiep, Paulo Francini, admitiu que a tendência de eliminação de postos de trabalho está perdendo a força e que as próximas baixas serão meramente residuais. A partir desse mês, a oferta de empregos no setor industrial poderá voltar à normalidade, segundo Francini, pois dos 22 setores pesquisados pela instituição, cinco contrataram mais do que demitiram. Esse é um bom argumento, apesar da pequenez dos números, para respaldar a tese de que o nível de confiança dos empresários não desceu aos abismos do desespero que algumas cassandras insistiam em espalhar.

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