A contrapartida não se fez esperar em termos de surpresa e novas nuanças de um problema de conteúdo altamente emocional. Apareceu uma nova faceta da amarga crônica resultante dos anos de chumbo e dos indizíveis conflitos ideológicos que postaram em trincheiras opostas um grande número de brasileiros, uns atuando com o intento de derrubar o governo ditatorial e os outros, elementos das Forças Armadas e das polícias estaduais, envolvidos nas ações de contra-ofensiva ou repressão propriamente dita dos movimentos insubmissos.
Nas últimas semanas o País acompanhou com atenção o debate sobre a reabertura do triste episódio das torturas contra presos políticos, a partir de uma declaração feita pelo ministro Tarso Genro, da Justiça, manifestando a idéia de que os crimes de tortura não são considerados crimes políticos e, como tal, seus mandantes e executores são passíveis de responsabilização cível e criminal. Militares da reserva prontamente reagiram através do Clube Militar do Rio de Janeiro que chegou a convocar ato público no qual se propunha a distribuir fotos e dados pessoais de ministros e servidores graduados do governo Lula, portadores de “passado terrorista”, segundo o jargão das casernas.
Uma semana antes da reunião do Clube Militar circulou nas redações dos principais jornais do País um resumo da ficha do próprio ministro Tarso Genro, decerto redigida por agentes da onipresente Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), na época em que cursava a Faculdade de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (RS) e militava num movimento de oposição ao golpe.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi encarregado pelo presidente Lula de acalmar os comandantes das Forças Armadas, transmitindo a eles a confiança do governo no bom senso dos militares da ativa e o temor de que muitos oficiais superiores atendessem à convocação do Clube Militar. Apenas dois oficiais em comando lá estiveram à paisana e sem fazer qualquer comentário, e a promessa de distribuir fotos e fichas não se concretizou para a aparente tranqüilidade de gregos e troianos.
Contudo, o debate que havia serenado voltou a esquentar com a informação de que um grupo de 175 ex-militares ingressou com ações na Justiça Federal e outros 425 se preparam para fazê-lo. O objetivo é reclamar da União o pagamento de indenizações por danos morais, físicos e psicológicos sofridos durante ações de combate nas selvas durante a guerrilha do Araguaia, nos primeiros anos de década de 70. Em média, cada reclamante teria solicitado R$ 500 mil, elevando o total das indenizações a R$ 300 milhões. Os confrontos entre os guerrilheiros e militares se deram na região do Bico do Papagaio, numa extensa área localizada no sudeste do Pará, sul do Maranhão e norte de Goiás, atualmente Tocantins. Este foi o maior episódio da luta armada ocorrida nos anos de chumbo, mas prossegue com seus arquivos trancafiados pelo governo.
Examinando a base de sustentação de algumas ações, a Advocacia-Geral da União (AGU) informou à Justiça Federal que as reivindicações não fazem sentido mesmo que a alegação jurídica resida no descaso das Forças Armadas com os soldados envolvidos nas ações de combate, tendo em vista que crimes prováveis prescreveram em trinta anos. Todavia, os ex-militares insistem em cobrar da União danos físicos e morais tais como amputação de membros, lesões permanentes resultantes de fraturas mal consolidadas em função de tiros ou facadas, cegueira, surdez, incapacidade para o trabalho e até pânico de guerra.
Independentemente do resultado das ações, a realidade exposta aos olhos da população é a presumida crueldade dos comandos militares da ocasião, que despacharam para a luta homens despreparados, sem treinamento e adequação às condições inóspitas que iriam enfrentar, aliás, um desafio igual para os guerrilheiros, dentre os quais se destacavam Osvaldo Costa, o Osvaldão, e o atual deputado petista José Genoino. As feridas foram reabertas.