Não é de hoje que empresários brasileiros da indústria calçadista se ressentem do dinamismo comercial dos chineses que a semelhança de outros produtos manufaturados, acentuou-se de maneira especial pela autêntica invasão do mercado nacional pelo sapato “made in China”. O setor já se mostra preocupado com a nova incursão dos fabricantes chineses, que a despeito da valorização da moeda norte-americana pretendem embarcar para o Brasil a parte da produção que não conseguiram negociar com importadores dos Estados Unidos e União Européia.
O setor calçadista tem informações de que os chineses estão oferecendo descontos entre 40% e 50%, visando a esvaziar os armazéns onde está depositada a produção encalhada. A declaração foi feita aos jornais por Milton Cardoso, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). A alternativa mais indicada, na avaliação do setor, é a intervenção do governo mediante instrumentos que tornem o mercado interno menos suscetível à prenunciada invasão chinesa.
A indústria chinesa de calçados começou a enfrentar problemas com a diminuição e até o cancelamento de encomendas oriundas dos Estados Unidos e países da União Européia, fato que levou muitas fábricas a conter o ritmo da produção e, em casos extremos, ao fechamento de unidades produtivas. Por isso, executivos brasileiros do setor estão se mobilizando para solicitar a atenção do governo para impedir que a dificuldade da indústria chinesa acabe se transportando para nosso País, com o retorno da crise cíclica que tem atacado um ramo responsável por milhares de empregos e pelo notável impulso ao desenvolvimento regional em estados como São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
O alerta faz sentido, porquanto nos dois anos passados o volume das importações brasileiras de sapatos fabricados na China aumentou 50%, com um leve acréscimo no exercício atual. Para o presidente da Abicalçados a explicação é simples: o brasileiro está comprando mais sapatos e os preços do produto chinês são mais atraentes na comparação com o similar nacional. A frustração, no entanto, acaba ficando com o produtor brasileiro, pois se acordo com a estimativa de Milton Cardoso, “de cada dez pares comercializados aqui, oito são chineses”. Convenhamos que a diferença é brutal, justificando as reclamações de empresários que realizaram investimentos confiando na retomada do crescimento econômico.
A desvalorização do dólar representou para a China o principal elemento na estratégia de avanço sobre o mercado internacional. Com a abrupta mudança do panorama nas últimas semanas, os produtos fabricados no Oriente ficaram mais caros e, obviamente, passaram a ser preteridos pelos de manufatura local. Essa é a razão específica que levou os fabricantes chineses a oferecer descontos ainda maiores que a própria desvalorização da moeda brasileira.
No ano passado, o Brasil exportou 200 milhões de pares de calçados e importou 60 milhões. Todavia, a diferença quantitativa torna-se ainda mais significativa pelo fato de que o maior volume do calçado exportado pela indústria nacional (sandálias e chinelos), apresenta baixo valor agregado, ao passo que o produto chinês (calçados esportivos de marcas internacionais) tem preço bem mais elevado. A indústria brasileira resiste pela capacidade comprovada de rapidamente fazer chegar aos pontos de varejo, produtos sintonizados com as novas tendências. A consolidação das vendas para o mercado externo, entrementes, padece com os sobressaltos determinados pela instabilidade cambial que torna inviáveis quaisquer planos de expansão.
Poucos empresários se arriscam a fazer projeções de avanço num cenário de tantas incertezas como o atual. Por isso, a ordem é deixar o motor em marcha lenta e fazer figa para o que vem por aí.