Eduardo Felipe P. Matias

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Dez anos após a crise asiática de 1997, o mundo voltou a ser assombrado por uma nova turbulência nos mercados financeiros. Apesar dos pontos em comum entre essas duas situações, os países envolvidos na atual instabilidade econômica e a evolução da globalização financeira as tornam razoavelmente diferentes.

Quando da primeira crise, os tigres asiáticos – Coréia do Sul, Cingapura, Taiwan e Hong Kong – apresentavam um crescimento vigoroso e consistente. Outros países do sudeste asiático, como Indonésia, Malásia e Tailândia, também aproveitavam o seu céu de brigadeiro. Em julho de 1997, no entanto, a Tailândia permitiu a flutuação de sua moeda, dando início à volatilidade que se espalharia pelos demais países da região e, com o tempo, alcançaria proporções globais.

A crise asiática demonstrou como a globalização financeira havia transformado o mundo. No passado, um problema ocorrido em um país como a Tailândia atingiria no máximo seus maiores parceiros comerciais e alguns países da sua região. Não foi o que ocorreu naquela ocasião. Talvez por nutrirem grandes expectativas com relação aos países emergentes, os investidores, ao verem frustradas essas expectativas em um desses países, automaticamente bateram em retirada dos demais. Logo, apesar dos problemas econômicos que de fato existiam nos países atingidos, parte daquela crise pode ser atribuída ao pânico, muitas vezes irracional, dos investidores internacionais – fantasma que não deixou de ameaçar os mercados.

Hoje, mais uma vez, a turbulência surge em um momento de bonança. Porém, a instabilidade parece não provir apenas do pânico dos investidores. Pelo peso dos atores envolvidos e pelas conseqüências, que podem ser imprevisíveis, há motivos reais para preocupar-se com que a crise se alastre.

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Quanto aos países envolvidos, é possível valer-se de uma figura de linguagem muito usada para ilustrar a propagação das crises na economia global: se um espirro da Tailândia foi capaz de provocar um resfriado no resto do mundo, um espirro dos Estados Unidos pode deixar a todos de molho por um bom tempo. E é exatamente naquele país que se encontra o epicentro dos tremores vividos nas últimas semanas. O medo é que a crise nos mercados de crédito de segunda linha no setor imobiliário norte-americano possa ter efeitos mais graves sobre a economia real. Um eventual desaquecimento da atividade econômica nos Estados Unidos afetaria a produção mundial, principalmente a chinesa, que tem nos Estados Unidos o maior comprador de seus produtos. A desaceleração da China, por sua vez, também reduziria a demanda mundial, especialmente por commodities. A queda no preço das commodities, que sustentam boa parte do nosso saldo comercial, aliada a uma redução no volume de nossas exportações em geral, seria prejudicial também para o Brasil.

Além disso, a forma como a economia global evoluiu, com a proliferação de derivativos e outros instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados, trouxe novos riscos. No caso atual, as instituições financeiras desenvolveram produtos complexos, baseados no fluxo de caixa gerado pelos empréstimos hipotecários. Esses papéis, altamente alavancados, difundiram-se pelas carteiras de diversos bancos, fundos de hedge e fundos de pensão, tornando difícil saber quais estão contaminados e qual o tamanho da perda que podem sofrer.

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A enorme liquidez e a estabilidade financeira dos últimos anos levaram à displicência na análise de crédito – os empréstimos de segunda linha e as avaliações equivocadas dos títulos neles baseados foram um sinal dessa euforia, que levou também à existência de bolhas de valorização de ativos em diversas partes do planeta. A volta da volatilidade nos faz lembrar que, no mercado financeiro global, é preciso agir prudentemente, implementando as medidas regulatórias necessárias para evitar novas crises. Quando se trata da globalização financeira, melhor acreditar em fantasmas. Porque, ao menos nesse caso, assim como as bruxas, ?que los hay, los hay?.

Eduardo Felipe P. Matias é doutor em Direito Internacional pela USP, diretor da Escola Internacional de Direito Anhembi Morumbi, sócio de L.O. Baptista Advogados, autor do livro A humanidade e suas fronteiras – do Estado soberano à sociedade global, ganhador do Prêmio Jabuti.