Oportuna a matéria de capa de O Estado no domingo. A repórter Luciana Cristo conversou com especialistas sobre a ausência de políticas públicas para as crianças -prioridade assegurada pela Constituição de 1988. Passaram-se vinte anos e os governos (de todas as esferas) seguem esquecendo daquelas que serão as responsáveis pelo futuro do País. E é esta a pergunta cabal: que futuro estamos planejando para nossa juventude?
A infância e a adolescência são tratadas pelo poder público da mesma forma que a saúde e o saneamento básico, por exemplo. Cada um dos interessados (governos municipais, estaduais e federal) abre mão de suas responsabilidades, esperando a contrapartida do outro. E a decorrência é a ausência de incentivo em todos os setores.
Mal comparando, é como se o governo federal deixasse de prover as universidades, dizendo que isto é tarefa dos governos estaduais. Mas estes também deixariam de lado a educação, afirmando que as prefeituras precisam se virar. E como estas não fariam nada, simplesmente acabaria a educação pública no Brasil.
Tal como a educação, a infância precisa ser assunto de todos os poderes constituídos. É esta a obrigação constitucional, e é esta a obrigação de nós, brasileiros. Mas a falta de compromisso é tão grande que cada vez mais vemos menores nas ruas, jovens se prostituindo e centros de reabilitação lotados. E os governos lidando com o assunto de forma paliativa, buscando soluções para os problemas visíveis, e não antecipando os riscos para que eles não ocorram.
Além disto, o poder público esquece do trabalho importante das organizações não-governamentais (ONGs). Há muitas entidades que podem prestar uma ajuda substancial aos projetos oficiais. A rigor, seriam os exemplos a serem seguidos pelos governos, mas o “comodismo oficial” afasta as iniciativas bem-sucedidas -afinal, pensam os governantes, para que ajudar mais se as ONGs já se sustentam? Assim, os menores e adolescentes seguem sem ajuda, sem projeto e sem futuro. Justamente no “país do futuro”.