Fadiga bolivariana

A classe média venezuelana, aparentemente, demonstrou nas eleições realizadas no último domingo não estar mais impressionada com as promessas mirabolantes da revolução do socialismo bolivariano, pregada pelo caudilhesco presidente Hugo Chávez. Em eleições realizadas em todo o país, o Partido Socialista Unidos pela Venezuela (PSUV), aliado a Chávez, conquistou o governo em 17 dos 22 estados, perdendo sintomaticamente nos centros mais ricos e populosos, nos quais a produção nacional está concentrada. Da mesma forma, o partido situacionista não conseguiu eleger os prefeitos de cidades importantes da Venezuela, tornando ainda mais remota a possibilidade de colocar novamente em votação a emenda constitucional estabelecendo o privilégio do presidente disputar quantas reeleições quiser.

O mínimo que se pode dizer, apesar da expressiva votação atribuída ao chavismo, é que parcelas consideráveis da sociedade sinalizam acentuado descontentamento com o modelo político imposto por Chávez sobre a Venezuela, sem apresentar ganhos efetivos e duradouros em qualidade de vida e progresso para a maioria dos habitantes. A Venezuela, apesar da extraordinária riqueza advinda do petróleo e dos inúmeros programas sociais de amparo a milhares de carentes, ainda convive com imensos bolsões de miséria, além de entre outros desafios, não ter logrado domar o processo inflacionário, um dos maiores do hemisfério.

Preso nas cordas pela queda brusca dos preços do petróleo, Chávez terá de repensar sua estratégia de governo, tendo em vista que em torno de 45% da população vivem nas regiões daqui em diante governadas por políticos de oposição ao socialismo bolivariano. Além disso, essas regiões densamente povoadas contribuem com quase 100% da produção nacional, o que permite estimar a extensão da influência socioeconômica exercida sobre o restante do país. Em 2010 haverá eleições para a Assembléia Nacional, onde os chavistas têm maioria absoluta, mas até lá os opositores a partir dos governos regionais – poderão apresentar-se aos eleitores em condições de conquistar grande número de cadeiras e, dessa forma, dificultar as coisas para os apoiadores de Chávez.

Os analistas são unânimes em afirmar que esse é o calcanhar-de-aquiles do líder da revolução bolivariana, de olho na oportunidade de disputar mais uma vez a presidência da República nas eleições de 2012. Contudo, caso a Assembléia Nacional, como sustentam observadores do cenário venezuelano, tiver uma distribuição equilibrada das cadeiras entre situação e oposição, dificilmente Chávez conseguirá impor suas veleidades personalistas sobre os legisladores.

Habilidoso e com um discurso cheio de lugares – comuns, Chávez parabenizou os partidos de oposição pelas vitórias em vários estados e cidades importantes, como a capital nacional, Caracas, onde o prefeito eleito Antonio Ledezma é da oposição. Ainda é cedo para fazer previsões, mas muitos acham que o novo prefeito de Caracas se transformará num forte adversário de Chávez, hipótese que somente se realizará caso o balanço da administração do novo prefeito seja positivo. A oposição governará os estados de Miranda (densamente povoado), Táchira (na fronteira colombiana) e Carabobo (pólo industrial), mantendo o poder em Zulia (maior produtor de petróleo) e Nueva Esparta, situados na região norte da Venezuela, a mais rica do país. Os governos da região metropolitana de Caracas, uma espécie de Distrito Federal e de grandes cidades como Maracaibo e Valência também passam ao comando da oposição.

Com a economia desacelerada pela queda dos preços do petróleo, a maior fonte de riqueza nacional, o motor da expansão econômica dos últimos anos vai diminuir o número de rotações, comprometendo os planos políticos de Chávez. Com uma economia dependente do mercado externo, a Venezuela importa quase tudo o que consome, mas com a receita menor das exportações terá sérios empecilhos nas compras externas. A pior coisa que pode acontecer, porém, é a inflação ficar fora de controle.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google