O ocaso do último patriarca do autoritarismo político brasileiro, que apesar dos avanços democráticos resistiu na Bahia e no Pará sob o comando implacável de Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho e, até essa altura continua incrustado no Maranhão e Amapá, estados onde a oligarquia capitaneada pelo senador José Sarney (PMDB) dá as cartas e decide o resultado do jogo, se desenha no horizonte cada vez mais conturbado do combalido chefe provincial.
A situação do senador pelo Amapá é de tal forma deplorável, que até mesmo os 14 integrantes da bancada do Democratas (DEM), que sempre deram apoio irrestrito ao presidente do Senado, tomaram a decisão de somar com os demais senadores que pedem o afastamento de Sarney da presidência da instituição. O PMDB, partido de Sarney, qualificou como traição o anúncio feito pelo senador José Agripino Maia (DEM-RN), líder da bancada, ficando praticamente isolado na defesa do presidente. A saída canhestra de Sarney foi cancelar a audiência solicitada por Agripino, na qual deveria comunicar o novo posicionamento da referida bancada.
Seria o mesmo que proibir a visita do sacerdote incumbido de ministrar ao paciente em estado terminal a extrema unção.
Enquanto isso as matérias políticas despachadas de Brasília dão ciência de que PSDB e PDT e pelo menos três senadores peemedebistas perfilham a mesma decisão, totalizando 45 parlamentares (44% da composição do Senado) contrários à permanência de Sarney na presidência. Os tucanos apresentaram a sugestão imediatamente rechaçada pelos componentes da mesa diretora, da entrega da presidência a uma comissão de alto nível integrada por cinco senadores, incumbida da responsabilidade de investigar as inúmeras denúncias de irregularidades originárias de gestões anteriores, mas que vieram a furo no início da atual gestão de Sarney, a terceira na presidência do Senado. Além disso, o cenário é ainda mais grave, tendo em vista que o diretor-geral exonerado, Agaciel da Silva Maia, foi nomeado para a função na qual permaneceu por 14 anos, na primeira gestão do mandarim de São Luís.
Ao longo desse período, segundo as evidências noticiadas diariamente pela imprensa, Agaciel teria montado um esquema para atender interesses particulares de senadores, facilitando mediante a utilização de atos secretos tanto a nomeação quanto a exoneração de parentes e apadrinhados dos parlamentares, incluindo o próprio José Sarney, jogando na lata de lixo a súmula do Supremo Tribunal Federal (STF), contra o nepotismo.
Como quem nunca comeu melado quando come se lambuza, segundo ensina com propriedade a sabedoria popular, Agaciel também foi tentado a sacar vantagens pessoais do modelo administrativo desafiadoramente clandestino implantado no Senado. Tantas fez que se imaginou superior à legislação imposta aos demais cidadãos, ocultando enquanto foi possível a propriedade de uma mansão localizada às margens do Lago Sul de Brasília, avaliada por corretores em R$ 5 milhões.
Como havia prometido, o PSOL protocolou junto à mesa diretora uma representação contra o presidente José Sarney e o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), motivando a decisão do DEM quanto ao pedido do afastamento do presidente até que todas as denúncias envolvendo seu nome sejam apuradas devidamente. Peemedebistas históricos como os senadores Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE) e o ex-presidente Garibaldi Alves Filho (RN), fazem parte do grupo dos que pedem o afastamento urgente de Sarney. A tentativa de amenizar o inferno astral do presidente do Senado foi o discurso proferido pela senadora Ideli Salvatti (PT-SC), líder do governo no Congresso Nacional, reiterando a solidariedade do Palácio do Planalto ao político que possui história suficiente no País para não ser tratado como homem comum, como declarou em meados de junho, no Casaquistão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Difícil será justificar a quantidade de parentes e gente da cozinha empregados no Senado, alguns deles ganhando por mês o que a maioria dos trabalhadores não consegue ganhar num ano.