Exportador de dólares

Em um período de 50 anos, entre 1930 e 1980, o Brasil foi o país que mais cresceu em termos brutos na economia mundial. O esgotamento do modelo substitutivo de importações alicerçado no nacional-desenvolvimentismo havia cumprido a missão modernizadora. Ao invés de em seu lugar definir uma nova estratégia nacional de desenvolvimento, a partir dos anos 80s, a economia brasileira entrou no círculo vicioso da semi-estagnação.

Entre 1950 e 1959, a média de crescimento foi de 7,15%; de 1960 a 1969, a média foi de 6,12%; de 1970 a 1979, a média atingiu 8,78%. Para ficar mais claro o retrato do desastre, o crescimento médio do Brasil de 1980 a 2003 foi de apenas 2,1%. O empresário e engenheiro Paulo Cunha, do ramo petroquímico, comprova que naqueles 50 anos a renda ?per capita? brasileira cresceu em média 3,04% ao ano, enquanto a ?per capita? mundial cresceu 1,92%. A economia brasileira figurava entre as dez mais dinâmicas do mundo. Já a partir de 1980 a 2004, ocorreu uma redução de 90% no ritmo de crescimento ?per capita?, exatamente de 4,39% para 0,43%.

A falta de uma estratégia nacional de desenvolvimento, que vem sendo a marca dos governos Figueiredo, Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula, gerou o fato de o Brasil ser um grande exportador de capital. O principal indutor para os investimentos externos de brasileiros em diferentes países tem nas taxas medíocres de crescimento econômico interno o grande balizador.

O Banco Central da República acaba de fazer objetivo levantamento sobre a movimentação financeira de brasileiros, pessoas físicas e jurídicas, e encontrou que o montante dos estoques de capitais nacionais alocados no exterior atingiu em 2005 o volume de 111 bilhões e 741 milhões de dólares. Desse extraordinário volume de capitais, os recursos direcionados para investimentos produtivos foi da ordem de 79 bilhões e 259 milhões de dólares. O restante se distribui assim: investimento em ações e títulos, 9 bilhões e 600 milhões de dólares; em depósitos de pessoas físicas, 17 bilhões e 100 milhões de dólares, e outros tipos de aplicações, 5 bilhões e 800 milhões de dólares.

No ano de 2005, de acordo com o Banco Central, somente nas Ilhas Cayman, as aplicações de brasileiros atingiam o expressivo volume de 26 bilhões e 500 milhões de dólares. Para o ano de 2006, a expectativa dos técnicos do BC é de que esse volume global de 111 bilhões e 741 milhões de dólares cresça expressivamente. A exemplo do que vem ocorrendo com mais celeridade desde 2001.

Para chegar aos números finais, o Banco Central pesquisou e recebeu 12.366 declarações de pessoas físicas e jurídicas que detêm o investimento fora do território nacional, a partir do valor de 100 mil dólares. Encontrou 10.703 pessoas físicas com o volume total de 24 bilhões e 336 milhões de dólares. No universo das pessoas jurídicas, são 1.663 empresas com o volume total de 87 bilhões e 407 milhões de dólares.

Estudiosos e pesquisadores da estrutura empresarial nacional entendem que o fluxo dos investimentos brasileiros no exterior superará nos próximos dois anos o ingresso de recursos externos no Brasil. As nossas empresas transnacionais, ao alocar investimentos em diferentes partes do mundo, o fazem na lógica das oportunidades, aproveitando o ótimo momento da economia mundial. Alicerçando uma presença no cenário internacional que remodará na futura obtenção de lucros e dividendos canalizados para o Brasil.

Houvesse internamente consolidado uma estratégia de desenvolvimento sustentável, a economia nacional teria sido a primeira opção desses investidores. O baixo crescimento é o principal motivador para esse crescente volume de investimentos empresariais nativos pelo mundo afora.

O mesmo deve ocorrer com aqueles que, na condição de pessoas físicas, preferem investir os seus recursos em paraísos fiscais. Observem que o montante de 111 bilhões e 741 milhões de dólares são recursos com origem legal, atestado pelo Banco Central.

Resta indagar: e os recursos ilegais, fruto do contrabando de moedas, em quanto montará? Os caixas-2, a sonegação, e ganhos não declarados, devem se expressar em outros bilhões de dólares, encobertos, corrupção impune.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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