Exmo. presidente Severino Cavalcanti

Severino, presidente da República. Pois não é que isso pode acontecer? Você já parou para pensar que nosso Severino, o mais caricato dos políticos nacionais, pode se tornar presidente do dia para a noite? E, nesse caso, como ficaria o Brasil?

Vejamos. Imagine que, por uma (infeliz) coincidência, Luiz Inácio Lula da Silva tenha uma crise absurda de bursite e seu vice, José de Alencar, esteja representando o Brasil numa reunião mundial no exterior. Eis a hora que Severino teria para sentar o traseiro, como diria Lula, na cadeira do presidente. Fácil, fácil, não?

Com plenos poderes escorrendo por entre os dedos, provavelmente a primeira coisa que ele faria seria se tornar o rei das medidas provisórias. Logo nas primeiras horas aumentaria os salários dos deputados, dos militares e dos servidores públicos. Seria um pequeno rombo de bilhões aos cofres públicos. Ah, também lançaria uma medida para acabar com a discussão sobre nepotismo e outra para proibir aborto em fetos sem cérebro.

Enriqueceria os hospitais psiquiátricos, pois enlouqueceria os economistas, já que deixaria a cargo deles a ingrata tarefa de arranjar dinheiro para suas decisões, e as feministas, pois proibiria de vez ações há décadas reivindicadas por elas, como o aborto.

Por falar em aborto, Severino também daria um jeito de mudar o Código Penal, pois certamente faria uma lei dizendo que estupro não poderia ser considerado crime hediondo, transferindo-o para a categoria de acidente. Nesse caso, todos os estupradores presos atualmente teriam suas penas revistas, sendo que a maioria seria solta. O Brasil seria o paraíso dos estupradores. Abortos em caso de estupro, então, nem pensar.

Ele traria de volta a lei que dizia que, se a mulher não casasse virgem, poderia ser renegada pelo marido. A recíproca, claro, não seria verdadeira. O homem, além de ter que aprender o ofício de ser marido antes do casório, poderia também casar-se ?meio-virgem?. Caberia ao futuro esposo escolher.

Como presidente, Severino concederia várias entrevistas coletivas e individuais, pois raramente se nega a falar com a imprensa. Entretanto, tiraria de Lula o título de senhor do improviso. Seria a glória para comentaristas, articulistas, chargistas e demais representantes da mídia irônica do Brasil. E como ele mesmo diz que ?meu parco patrimônio, e da minha família, só vem minguando ao longo de tantos anos de vida pública?, o que será que ele faria com os cofres do País?

Mas Severino, provavelmente, não se ateria a, digamos, discutir projetos que já estão em pauta. Já que estaria realmente no poder, por que não reavivar antigos projetos de sua própria autoria? Seria a prova de que nos seus 40 anos de vida pública, sendo que 28 só como deputado federal, não foram em vão. Ele poderia, por exemplo, mandar discutir o requerimento que fez dia 9 de agosto do ano passado: registro de voto de louvor ao grupo pernambucano de forró ?Limão com Mel?.

Ou quem sabe voltar a discutir o requerimento, feito em 2003, de envio de voto de regozijo ao ex-deputado federal Hagahús Araújo pelo ?transcurso do cinqüentenário do Instituto de Menores de Dianópolis?. Para reacender o debate sobre transexualidade, ele poderia levar a cabo a proibição da realização de cirurgia plástica de ?transformação plástico-reconstrutiva da genitália? (leia-se: mudança de sexo) nos casos de transexualidade, na rede de unidades integrantes do SUS. O pedido foi feito em 2003 e, por enquanto, tramita por várias comissões da Câmara. Indo mais longe, Severino poderia reavivar um pedido feito em 2001: qualificar como crime a exibição, por emissora de televisão, de cena de nudismo ou de relações sexuais. Adeus, novela das oito!

Se Severino puder ser presidente, certamente os políticos de Brasília teriam muito, muito trabalho pela frente. E o Brasil poderia até mudar de perfil: já pensou Severino debatendo sobre a exclusão das prostitutas na campanha antiaids com George Bush, como queriam os Estados Unidos? O norte-americano sairia sorrindo do encontro.

Por enquanto (ufa!), tudo não passa de suposição. Mas, sabendo que Severino nunca perdeu uma eleição, é bom o cidadão brasileiro começar a pensar: e se ele resolver, mesmo, ser presidente?

Ariane Holzbach é jornalista no Rio de Janeiro. E-mail: arianediniz@uol.com.br

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