Excesso de otimismo, esperanças distantes

Dizem as filosofias orientais que duas são as fontes do sofrimento humano: a vaidade e a esperança. Vencida a primeira etapa, de liberação legal para a condução das pesquisas com células-tronco originárias de embriões congelados, é chegado o momento de refletir sobre a verdade atual dos fatos científicos que cercam esse promissor campo da Medicina. Sim, promissor. Quando falamos em tratamento com células-tronco, falamos, ainda, de esperança. É de extrema importância que a opinião pública brasileira, tão eficazmente mobilizada para que o Brasil conquistasse sua autonomia para a pesquisa científica nessa área, esteja agora devidamente esclarecida sobre os seus limites terapêuticos, bem como a enorme distância a ser percorrida para que um dia possamos falar – com toda e justificada vaidade – dos milagres da Medicina Regenerativa.

No que diz respeito às células-tronco embrionárias, cabe um alerta ainda mais necessário e importante, assunto à parte do ambiente polêmico que envolve as células de embriões congelados: a discussão sobre o início da vida, na qual contrapõem-se as opiniões de religiosos, juristas, médicos e pesquisadores. Questões anímicas à parte, o que temos -do ponto de vista terapêutico -com relação às células embrionárias não são boas notícias, por enquanto. Devido à sua altíssima pluripotência reprodutiva, as células-tronco embrionárias têm grande potencial carcinogênico. Enquanto os pesquisadores não encontrarem os meios para controlar o seu poder de rápida e variada diferenciação, elas não terão condições de ser utilizadas como terapia em seres humanos.

O problema é, portanto, controlar essa capacidade natural das células embrionárias de se tornarem células de vários tipos, alimentando e reenergizando quaisquer tecidos e órgãos – tecidos tumorais, inclusive. É preciso que os cientistas consigam que elas sejam mais ?obedientes? no sentido de serem dirigidas para a recuperação de órgãos específicos, sem o risco de carcinogênese, para depois, e não sabemos quando será esse depois, ser aproveitadas terapeuticamente.

A pesquisa com células-tronco abriu horizontes impensáveis e absolutamente animadores para a Medicina, disto não temos dúvidas, mas é preciso não superestimar o potencial virtual – a esperança – da sua utilização como tratamento de diversas patologias, que ainda está em fase de pesquisas, com esparsos bom resultados em algumas especialidades médicas. Nesses casos, os resultados animadores foram obtidos com células-tronco adultas (células pós-natal), provindas da medula óssea, de cordão umbilical e células mesenquimais, derivadas de diversos tecidos (dente de leite, por exemplo). Uma célula-tronco adulta, ou pós-natal, é tanto mais potente quanto mais jovem é o indivíduo. Importa, mais uma vez, esclarecer que os bons prenúncios terapêuticos obtidos não se deram com células provindas de embriões.

Como médicos cumpre-nos o dever de alertar para essa dura verdade, em nome da ética médica e, especialmente, para que se evite fonte extra de sofrimento numa esperança cujo horizonte ainda é longínquo – e não sabemos quanto longe está. Por outro lado, é preciso esclarecer que a liberação do uso das CT embrionárias para a pesquisa científica é uma vitória para a autonomia do País nessa linha de pesquisa médica. O Legislativo agiu corretamente em prol do futuro tecnológico e econômico do País ao liberar nossos cientistas a trabalharem com células-tronco embrionárias, pois o modelo animal não é o ideal para esse tipo de pesquisa, dadas as diferenças de comportamento das células-tronco humanas em relação às de animais de experimentação. Células-tronco de camundongos, por exemplo, são muito mais ?obedientes? no que diz respeito ao controle da diferenciação.

Por todos esses aspectos, seria lastimável termos de comprar tecnologia do exterior, quando estamos bem preparados para desenvolvê-la em nossos centros de pesquisa.

A Medicina Regenerativa é uma promessa, acalentada carinhosamente por todos que nos preocupamos em minimizar o sofrimento humano, mas, neste momento, a cautela é a palavra que deve vir à tona. As pesquisas com células-tronco, especialmente as embrionárias, são mais importantes, hoje, pela pesquisa em si mesma do que pelos resultados terapêuticos, que ainda estão distantes.

Voltando à filosofia oriental, o dedo está apontando para a Lua – mas os esperançosos, e os vaidosos, estão olhando para o dedo…

Dr. Roger Abdelmassih é especialista em Reprodução Humana e autor do livro Tudo por um bebê.

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