O Senado da República, mesmo em recesso, viveu uma de suas piores semanas com as infindáveis denúncias contra o presidente da instituição, José Sarney (PMDB-AP), que já sinalizou ao Palácio do Planalto a intenção de renunciar para preservar os direitos políticos. A saraivada de representações no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar solicitando a investigação das práticas incompatíveis com a atividade parlamentar, além do ressentimento natural dos controladores da bancada do PMDB liderados pelo senador Renan Calheiros (AL), gerou também uma pesada retaliação contra o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), autor de quatro dos inúmeros pedidos de investigação.

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Sobre o senador amazonense, um dos mais aguerridos líderes da oposição na Casa, explodiu a revelação de que antigo funcionário de seu gabinete passou 18 meses estudando teatro na Espanha, período em que continuou recebendo salários do Senado. Atingido em plena evolução do gongórico discurso de salvador da pátria, o tucano de vistosa plumagem depositou imediatamente R$ 60,6 mil na conta da União, declarando que nos próximos três meses depositará parcelas de R$ 50 mil até quitar inteiramente a dívida. Segundo ele, a primeira parte do pagamento resultou da venda de um terreno pertencente a sua mulher, sendo que não está descartada a hipótese de vender até dos móveis da família para saldar o compromisso.

O líder do PSDB no Senado revelou aos jornalistas que cobrem as atividades do Congresso, que a retaliação a ele imposta pelo senador Renan Calheiros “é uma coisa de mafiosos divididos em gangues. Mas, eu não pertenço a nenhuma dessas gangues”, vociferou.

Virgílio, que como todo brasileiro que se preza parece danar-se com as agruras das finanças pessoais combalidas, há algumas semanas havia pago um empréstimo de R$ 10 mil contraído com o ex-diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, a fim de reparar uma emergência causada pela inoperância de seus cartões de crédito durante viagem a Paris. Pelo que se soube, o senador foi socorrido pelos funcionários de seu gabinete que tomaram a iniciativa de fazer uma “vaquinha”, permitindo a devolução do dinheiro emprestado por Agaciel. A situação não deixa de ser constrangedora, sobretudo para quem tem agido com extrema dureza nas acusações ao enxovalhado José Sarney, mesmo diante da pronta reação de acertar as pendências financeiras, mormente no caso do funcionário fantasma, que de acordo com as cláusulas menos inquisitoriais do código de ética dos parlamentares, é passível de caracterizar por igual uma grosseira agressão ao decoro parlamentar.

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A agitação da semana agravou-se, ainda, pela nota assinada pelo senador Aloizio Mercadante (PT-SP) pedindo o afastamento de Sarney da presidência do Senado, num certeiro golpe imediatamente acusado pelo Palácio do Planalto por intermédio das ponderações do ministro da Articulação Institucional, José Múcio Monteiro. Entretanto, o fogo ateado pelo senador paulista no ressequido matagal era mais forte do que se supunha e acabou acirrando as divergências entre a bancada de resultados do PMDB e o governo. Múcio teria dito que a nota do PT resumia a posição isolada de “um ou dois senadores”, ateando mais lenha à fogueira das vaidades e o desfecho foi um telefonema a Aloizio Mercadante para explicar que seus comentários não representavam “o sentimento do governo, mas apenas um sentimento pessoal”. Acredite quem quiser, mas o ministro até que se esforçou para garantir que jamais lhe passou pelo bestunto “desautorizar” o líder da bancada petista na Câmara Alta.

Mercadante recebeu a solidariedade dos colegas petistas Eduardo Suplicy (SP) e Flávio Arns (PR), embora na voragem da discussão tenha sido alvejado por autêntico passa-moleque regurgitado pelo presidente nacional do partido, Ricardo Berzoini, estouvado coroinha palaciano de quem se desconhecia a espantosa clarividência de mestre das artes políticas. Ele definiu “como infantil, precipitada e ansiosa” a atitude mais que coerente do senador paulista. Esse é o saldo mambembe da ética petista.

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