Ivan Schmidt
Uma platéia privilegiada e atenta lotou o Teatro da Reitoria na última terça-feira, 23, para a conferência do teólogo suíço Hans Küng (1928), um global player na melhor acepção utilizada pelo professor Paulo Söethe, da cátedra Unesco para a Paz Mundial da Universidade Federal do Paraná (UFPR), uma das instituições que promoveram a vinda daquele que tem lugar cativo entre os maiores pensadores do século 20. Foi um momento de real magnitude na experiência das pessoas que lá compareceram, mesmo porque em Curitiba raras são as oportunidades de ver e ouvir um intelectual desse porte, interlocutor de chefes de Estado, dirigentes de instituições multilaterais e, enfim, do papa Bento XVI, de quem se tornou amigo durante o Concílio Vaticano II, no qual foram chamados por João XXIII a atuar como consultores de assuntos teológicos.
Por razões que não cabe analisar aqui, em 1979 Küng foi proibido de atuar como teólogo católico e de lecionar em instituições de ensino superior mantidas pela igreja, quando começou o longo período de resfriamento da amizade com o colega Joseph Ratzinger, em função das idéias divergentes da orientação do Vaticano. No início do pontificado, Bento concedeu a audiência solicitada pelo teólogo proscrito, mas de acordo com a versão diplomática do próprio Küng, a conversa girou unicamente sobre temas de interesse comum.
Presidente da Fundação Ethos Mundial, autor de dezenas de livros (vários lançados no Brasil) e conferencista de renome internacional, Küng é autor do Projeto de Ética Mundial, aceito e referendado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um marco capaz de produzir as mudanças desejadas nas relações nacionais e globais, embora a maioria dos governantes o trate com uma indiferença travestida de mórbida irresponsabilidade.
Küng dividiu a problemática apropriadamente denominada de ?desordem do mundo? em três vertentes: o caos resultante da Primeira Guerra Mundial (1918), a divisão do mundo em dois blocos hegemônicos e o surgimento do stalinismo (1945) e o esfacelamento do comunismo soviético após a queda do Muro de Berlim (1989). Um dos subprodutos mais cruéis dessa desordem se manifestou no imperialismo econômico, a imagem perfeita e acabada do poderio exercido pelos Estados Unidos sobre as demais nações da Terra.
Não é preciso acrescentar que o imperialismo econômico encarna a visão contrária do Projeto de Ética Mundial, tendo em vista o fato de que nem todas as necessidades humanas são satisfeitas pela produção possibilitada pela economia. Além disso, verifica-se outro grave desvio de rumo quando, na maioria das vezes, os interesses particulares se sobrepõem aos da coletividade. Um resumo do pensamento de Küng a esse respeito se encontra no livro Uma ética global para a política e a economia mundiais (Vozes, RJ, 1999): ?A vida humana não consiste unicamente de economia, todo mundo sabe. Mas seria também necessário que de todas as maneiras isso fosse levado a sério na prática. A economia de mercado não é um fim em si mesmo, ela deve estar a serviço das necessidades dos homens e não tornar os homens totalmente dependentes da lógica do mercado. Também o mercado mundial existe por causa do homem, e não vice-versa?.
E, num corte político de seu pensamento, escreveu o professor emérito da Universidade de Tübingen que ?a economia de mercado deve completar a democracia e não substituí-la, nem determinar-lhe a forma. Sob as condições da globalização esse perigo é mais real do que nunca?.
Dessa forma, a nova ordem mundial apregoada por Hans Küng, autêntico profeta contemporâneo que, entre outros, se alinha em dimensão ética e moral a Max Weber, Friedrich von Hayek, Fritjof Capra, Noam Chomsky, Edward Said e, por que não?, Al Gore, distinguido este ano com o Prêmio Nobel da Paz por sua luta contra o aquecimento global, não é outra coisa senão a reivindicação do respeito absoluto aos Direitos do Homem.
?O ser humano deve ser tratado como humano?, declarou o sábio diante da platéia inebriada. Não precisava ser mais incisivo.
Ivan Schmidt é jornalista.