Estupidificante imodéstia

O atualíssimo cenário político é dominado por algumas personalidades marcantes, a rigor notabilizadas pelo desempenho no espaço destinado ao desfile dos representantes desse ou daquele estamento socioeconômico, cuja escorreita definição nem o grande Raymundo Faoro foi capaz de nos dar em Os donos do poder, sua obra monumental.

Das personalidades a que me refiro, apenas uma está investida de autoridade outorgada pelo arcabouço legal erigido ao longo do processo constitucional que legou ao Brasil a condição de república federativa. Trata-se do ministro Nelson Jobim, ex-deputado federal do PMDB-RS, ex-chefe da Casa Civil do presidente Fernando Henrique e por este nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF), o qual agora preside. Jobim anunciou que deixará o Supremo no final de março, quando deverá se aposentar depois de nove anos como juiz.

Os demais, fora do poder, mas já o tendo exercido e a ele querendo voltar, são o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e o ex-governador do Estado do Rio, Anthony Garotinho. Por óbvio, e até para dar sustança ao comentário, não se poderia omitir os nomes de Luiz Inácio, José Serra e Geraldo Alckmin, também atores de primeira plana no capítulo ora vivido em nosso panorama institucional.

FHC não é, diga-se de passagem, pré-candidato à Presidência, mas deve ser levado na conta de chefe plenipotenciário do sistema de oposição ao governo, não só pela manha acumulada no raposismo cultivado em oito anos no Palácio do Planalto, período não pequeno que começou a construir com base nos mandatos de senador da República e na passagem pelos ministérios das Relações Exteriores e Fazenda, no governo Itamar Franco.

O ex-governador Anthony Garotinho, veterano da eleição presidencial de 2002, é sim candidato declarado, embora deva enfrentar as prévias que o PMDB realizará no dia 19 de março próximo. Depois de sair do PDT de Brizola e de contar com o beneplácito do engenheiro que lhe abriu as portas do Palácio Guanabara, Garotinho experimentou algumas legendas até desembarcar no PMDB, ao pressentir a fragilidade da governança interna do partido, inoculado pelo pragmatismo utilizado por Maluf ao desfazer com um piparote a alquebrada estrutura do antigo PDS.

Estrutura, é forçoso reconhecer, que se fingiu de morta, mas recuperou o fôlego ao agarrar-se ao salva-vidas atirado por Tancredo e Ulisses, estando aí bela e fagueira nas pessoas de José Sarney, Jorge Bornhausen, Antônio Carlos Magalhães, Marco Maciel e novíssimos bravateiros do conservadorismo como os deputados José Carlos Aleluia, Eduardo Paes e Ônix Lorenzoni, entre outros.

Na verdade, mesmo sob a obrigação de considerar a diferença de estilos de FHC, Nelson Jobim e Anthony Garotinho, não se descarta a hipótese de que são essas as figuras de maior peso que a elite do poder dispõe e prestigia, na fase em curso do plano de abalar a plataforma de Lula. No vale tudo, aproveita-se por um lado a inoperância do governo e, por outro, a devastação ética do Partido dos Trabalhadores.

O ex-presidente tem cometido sérios pecados de linguagem ao referir-se ao governo Lula – nem tanto à pessoa do presidente -, mas, por força da estratégia habilmente elaborada dirigindo os impropérios ao revestimento partidário da administração federal, vale dizer o PT, classificado com exagero e injustiça como partido que tem como prática a ?ética de roubar?. Nem como resposta requentada ao ?fora FHC? bradado pelos petistas no segundo mandato, serve a inusitada ambigüidade do príncipe dos sociólogos. Aliás, FHC teve oito anos para transformar o Brasil em legítimo bastião da social-democracia, mas o que fez foi um governo pífio, entreguista, aparelhado por deslumbrados e/ou vorazes serviçais da supimpa burguesia que domina o Brasil de Dom João I a Getúlio Vargas, ainda na lição de Faoro. A quem interessar possa, até ontem à noite, aduziria eu montado em estupidificante imodéstia.

E o ministro Nelson Jobim? O ilustre cavalheiro dos pampas está possuído, como o saber sociológico recende do príncipe, de enciclopédico conhecimento da ciência jurídica e seus desdobramentos. Elucubra, sim senhores, embora negue com a elegância de um lorde, que talvez tenha chegado a vez de autêntico magistrado ocupar a curul republicana. Quer se oferecer para o sacrifício de disputar a eleição, embora não se desaponte se lhe compensarem com a vice-presidência, na chapa de Lula ou Serra. É o que se diz.

Ivan Schmidt é jornalista.

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