O governo mobiliza o melhor de seus recursos humanos na área econômica no afã de resolver o problema de caixa do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDES), com o desígnio de dar continuidade ao programa de investimentos em 2009. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, estuda com sua assessoria técnica a forma mais objetiva de detectar fontes de captação de recursos, porquanto a instituição tem atualmente uma carteira avaliada em R$ 120 bilhões de projetos aprovados para os próximos doze meses. O problema é que disponibilidade efetiva não chega a R$ 60 bilhões.
Segundo se apurou em Brasília, já no mês de março do próximo ano, o governo estará diante do desafio de reforçar o caixa da principal instituição que empresta dinheiro à iniciativa privada, com a finalidade de estimular a implantação de projetos que somente serão amortizados no longo prazo. Com a crise financeira mundial as linhas de crédito encolheram, já semeando evidências bastante concretas de que obter empréstimos está cada vez mais difícil.
Uma das ajudas que o governo tenciona buscar está na linha de financiamento criada recentemente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que está oferecendo US$ 10 bilhões com o compromisso de eliminar entraves burocráticos para a liberação dos recursos. O Ministério do Planejamento também está disposto a pleitear a utilização de uma parcela dos US$ 30 bilhões que o Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, está prometendo colocar à disposição do governo brasileiro.
A essa altura, o governo por intermédio do ministro encarregado das ações de planejamento e acompanhamento da execução orçamentária, o paranaense Paulo Bernardo, não titubeia em discorrer sobre a crise sem mascarar a real extensão de sua gravidade. A situação é complexa no dizer do ministro, sobremaneira preocupado com a retração dos bancos que, por tabela, transferem para as instituições públicas a responsabilidade de enfrentar a súbita mudança de direção na procura por investimentos. O BNDES chegará ao final do presente exercício com um total de empréstimos de R$ 90 bilhões, embora essa demanda tenha estourado em R$ 4 bilhões. O Tesouro, desde janeiro desse ano, emprestou ao banco R$ 30 bilhões, mas Bernardo adiantou que em 2009 será impossível lançar mão de recursos orçamentários para dar vazão aos pedidos de empréstimos catalogados pela instituição oficial.
O convincente argumento usado pelo ministro para tornar palatável a notícia inquietante, remete ao fato de que, em 2009, a União não terá como evitar a liberação de recursos para assegurar a implantação de outras políticas de combate à crise, a fim de impedir fissuras comprometedoras no desenvolvimento econômico. Por isso, o governo não despreza a probabilidade de captar até R$ 10 bilhões no mercado interno, especialmente para suprir o atendimento dos pedidos do primeiro trimestre do ano. A alternativa pensada pelo governo seria viabilizada pelo Banco Central, mediante a liberação de compulsórios oriundos dos depósitos à vista, como ocorreu na liberação para a compra das carteiras de crédito de pequenas e médias instituições. Entretanto, ainda não se sabe qual será a maneira indicada para compatibilizar o custo das captações com os juros cobrados dos clientes pelo BNDES, tendo em vista que a instituição não poderá emprestar com base na Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que é subsidiada.
O BNDES capta a maior parte de seus recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), mas diante da restrição dessa fonte de dinheiro barato, o banco também se obriga a buscar melhor remuneração para seus financiamentos, a fim de não onerar o Tesouro com a equivalência das taxas. O dilema da área econômica, portanto, é encontrar a forma de captar dinheiro barato para suprir o caixa do BNDES, que somente assim continuará a financiar projetos públicos e privados de expansão da infra-estrutura e da produção a custos menores que os praticados pelo mercado. Em outras palavras, um desafio que exige a espantosa versatilidade do mágico Merlim.