Pelo cheiro, o mar de lama não deve ser apenas de lama.
A burguesia fede, sim, essa burguesia metamórfica e enganosa, e faz embrulhar o estômago dos homens honestos!
Vimos acompanhando, no cenário nacional, a todo momento, o estouro de novas quadrilhas cada vez mais numerosas da camarilha sedenta de pecúnia.
Obcecados, como abutres, pela cupidez e fiados na impunidade, os pulhas avançam despudoradamente sobre o erário, deslembrados até de tomar certas precauções com microfones e aparelhos sofisticados de espionagem.
Estupefatos, vemos homens públicos, tidos como respeitáveis ?excelências?, de venerandas cãs, sendo algemados e conduzidos para a cadeia, amontoados em humilhantes camburões. Homens que, ainda ontem, pegaram em armas na luta por um País melhor… Que que é isso, companheiros?!
Assistindo a tudo isso, recrudesce em mim aquela dúvida pertinaz, que desde sempre me vem martelando a mente: Por que será, meu Deus, que eles se submetem a tanto sacrifício nas campanhas eleitorais, onde gastam milhões, para depois receber apenas limitados vencimentos? Quanto desprendimento! Quanto amor à pátria!
A resposta aí está. A sociedade, estarrecida, não sabe se ainda resta uma esperança de salvação para este País. Se ainda sobrará, no final de tudo, número suficiente de homens probos para prender e trancafiar nos presídios essa multidão de ratazanas que assaltam sistematicamente o tesouro nacional.
A propósito dos presídios, dia desses, a imprensa noticiou a prisão de uma quadrilha que vendia ?vagas? num concurso para agente penitenciário. Cada ?vaga? era negociada – pasmem! – por mais de R$ 30.000,00. Portanto, o canalha do ?agente? teria de trabalhar durante mais de três anos para pagar por sua ?nomeação?. Isso, sem comer, sem se vestir, sem sobrar dinheiro para o aluguel…
Como explicar essa contabilidade marota?
Foi então que encontrei explicação também para outra dúvida que sempre me martirizava: Por que será que diariamente, sistematicamente, são feitas revistas policiais nos presídios de segurança máxima (?) e sempre, sempre, no dia seguinte, invariavelmente, as armas e celulares apreendidos estão de volta nas celas?
Será que a Polícia Federal e a imprensa não são capazes de desbaratar essas quadrilhas?
Acorda, Diógenes, o Cínico! Levanta-te da tumba com tua lanterna e vamos sair juntos à procura do homem honesto!
Ó conterrâneo ilustre, valoroso Águia de Haia, teu discurso continua atual… De tanto ver disseminar-se a podridão nas instituições; de tanto ver alastrar-se a ladroeira em todos os níveis da administração pública; de tanto ver as hordas de corruptos, soltas e atrevidas, zombando daqueles que trilham o caminho da honradez e da probidade, o homem chega a desanimar-se da honra e revoltar-se contra a voracidade fiscal de um governo injusto na arrecadação de tributos e na distribuição da renda! Esse governo que virou um Robin Hood às avessas, que rouba dos pobres para dar aos ricos!
Albino Freire é juiz de Direito aposentado e membro da Academia Paranaense de Letras.