Ossami Sakamori
Os produtores das principais regiões agrícolas brasileiras começam, neste mês, o plantio das culturas de verão da safra 2005/06 e vejo pelos dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) o excelente desempenho no setor das exportações, resultado que até o mês de setembro soma US$ 32,482 bilhões, gerando um superávit de US$ 28,719 bilhões na balança comercial brasileira. Isso me traz uma reflexão de quão cruel é o mundo político.
Lembro-me do ano de 2003, o governo Lula com o problema de iminente volta da inflação galopante, com o crescimento do PIB beirando a zero, quando o ministro Roberto Rodrigues foi à luta convencer o setor agropecuário de que produzir ainda era a melhor solução para o País. E conseguiu, um pouco favorecido pelo câmbio desvalorizado, mas sobretudo pelo seu conhecimento e sua maneira pessoal de brigar pelo setor. Chamou atenção da imprensa de que ele, ministro de um setor tão importante, não era atendido pelo ministro Palocci para uma simples reunião de trabalho.
O setor agrícola, sobretudo na safra de verão 2003/04, contribuiu decididamente para tornar o PIB positivo, a despeito do crescimento até negativo em determinados setores industriais. O ministro Roberto Rodrigues dizia na época que o bom desempenho do setor agrícola traria reflexos positivos aos demais setores, iniciando um círculo virtuoso para o País. E, assim como ele previu, o Brasil está colhendo o resultado positivo, com crescimento do PIB em torno de 3,5%, anualizado, e um crescimento de certa forma sustentável da indústria nacional. É verdade que outros fatores têm influenciado na obtenção dos resultados positivos, sobretudo o crescimento da economia do mundo como um todo, mas é inegável que o setor agrícola respondeu positivamente no justo momento em que o País necessitou sair daquela situação grave.
Ele é incansável, passa despercebido pela mídia nacional, mas cito aqui alguns exemplos da sua atuação. Enquanto no front externo participa de um ?road show? internacional do algodão brasileiro, promovendo o ?Brazilian Cotton Lint 2005?, no front interno inaugura-se a operação pela BM&F de um novo título para financiamento da estocagem agrícola denominado Certificado de Depósito Agropecuário/Warrant Agropecuário (CDA/WA) que se trata da modernização do financiamento da comercialização, substituindo os antigos EGFs, iniciativa incentivada pelo ministro.
O setor agrícola passa hoje por situação oposta daquela da safra 2003/04. Vem da ressaca provocada pela quebra da safra 2004/05, em função de estiagem e preços agrícolas, deprimido pelo câmbio sobrevalorizado e no início deste mês o caso da febre aftosa no Mato Grosso do Sul. Então, hoje o setor é problemático para o governo, apesar de produzir superávit na balança comercial brasileira, devido a inadimplência dos agricultores com o sistema financeiro.
Dentro do contexto, o ministro é fenestrado, é esquecido, e nem é lembrado para fazer parte do palanque presidencial quando há comemoração de algum evento, porque não é conveniente para o marketing do governo Lula, como já disse Rubens Ricúpero, ministro do governo FHC: o que é bom a gente fatura e o que é ruim a gente esconde.
Esconderam o ministro Roberto Rodrigues!
Ossami Sakamori é consultor de empresas e autor do livro ?Brasil 180º – 50 propostas para mudança do rumo? (www.brasil2.com.br).