Hélio Duque
Tempos difíceis na economia mundial envolverão os países emergentes a partir de 2007. O Brasil irá pagar um alto preço, não obstante o otimismo que se proclama dos seus fundamentos econômicos. Eles são fragilíssimos, expressados na menor taxa de crescimento entre os emergentes e na manutenção das mais altas taxas de juros do mundo. Agravados com o fato de o País ter desperdiçado o grande crescimento mundial dos últimos anos, ao não optar por políticas econômicas que fortalecessem taxas expressivas de crescimento sustentável.
O governo da República a ser eleito neste ano e muitos governos estaduais, independentemente de quais sejam os vencedores, devem, desde já, se preparar para tremendas dificuldades, engolfadas numa crise econômica que virá. E o mais dramático é que será determinada por fatores externos. Devem se preparar para o cenário adverso que se desenha no horizonte das economias desenvolvidas e sofisticadas do mundo globalizado.
O núcleo gerador dessa freiada tem como epicentro a economia norte-americana, superendividada. Começará com a deflação dos ativos financeiros e conseqüente redução da liquidez mundial. A nova política do Federal Reserve Bank (Banco Central) dos EUA é de agressiva elevação das taxas de juros. A maior economia do mundo, detentora de um PIB de 12 trilhões de dólares, tem uma dívida pública federal brutal e o endividamento pessoal das famílias é assombroso.
Didaticamente, e sem linguagem tecnocrática, vamos aos fatos: a dívida federal pública dos EUA já ultrapassa a 8 trilhões e 500 bilhões de dólares. No ano 2000 essa dívida era de 5 trilhões e 600 bilhões de dólares. O Congressional Budget Office (órgão do Congresso responsável pelo orçamento) projeta que nos próximos anos ela poderá atingir o montante de 12 trilhões e 800 bilhões de dólares. No governo Bush a situação já foi agravada por três fatores básicos. O primeiro, a redução das receitas iniciada em 2001. O segundo, o corte generoso dos impostos para grupos de rendas mais altas, agravado com a brutal elevação das despesas militares nas ocupações do Afeganistão e do Iraque. O terceiro, o estímulo ao endividamento pessoal e os gastos para garantia do bem-estar doméstico.
Os EUA são os maiores devedores do mundo. Hoje os bancos centrais asiáticos têm comprado grandes quantidades de títulos e dólares, especialmente chineses, japoneses, coreanos e malasianos. Outro núcleo de refinanciamento vem dos produtores de petróleo do Oriente Médio, que investem no país os enormes superávits comerciais advindos dos altos preços do petróleo. Como decorrência, os investidores estrangeiros estão acumulando enormes créditos sobre a produção futura da economia norte-americana.
O cenário do endividamento pessoal das famílias americanas não é diferente. A renda de um americano médio é de 40 mil dólares ao ano e sua poupança é zero. A poupança familiar era há 15 anos da ordem de 7,5% da renda anual como média nacional. Essa poupança hoje é zero. A dívida hipotecária dos norte-americanos já ultrapassa os 3 trilhões de dólares. A ?bolha imobiliária? que prevaleceu com financiamentos e refinanciamentos de imóveis estimulados pelas baixíssimas taxas de juros chegou ao fim e vai explodir. Com a elevação dos juros das hipotecas com taxas ajustáveis, isto é, variáveis, 59% desses financiamentos serão atingidos.
Há de se perguntar: o que isso tem a ver com o Brasil? A resposta é simples. O maior mercado consumidor do mundo é o norte-americano e a perda de dinamismo do alto consumo afetará as nossas exportações. O fato objetivo dos últimos anos, não obstante a renda fraca, o consumo tinha sua garantia na propriedade de imóveis. A sua valorização era a garantia do endividamento. Agora acabou. O economista Stephen Roach, ex-diretor do Federal Reserve Bank e coordenador econômico do Morgan Stanley Bank, alerta: ?O consumidor norte-americano está superendividado. Se esse consenso nos EUA perder dinamismo os mercados emergentes novamente serão problemáticos. Isso inclui o Brasil?.
Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991) e é autor de vários livros sobre a economia brasileira.