Esperança possível

Desde meados de setembro do ano passado não se fala de outra coisa senão da crise financeira que abalou a economia em escala planetária. É como se um imenso castelo de cartas, ligado a nada e coisa nenhuma, recebesse de repente uma lufada de vento e fosse levado de roldão. Na cidade de São Paulo, em pleno Carnaval, deu-se um episódio inusitado que ilustra a situação de agonia vivida hoje na maioria dos países industrializados e em desenvolvimento. Com o rompimento da adutora de um lago existente numa das áreas verdes mais tradicionais da cidade, o Parque da Aclimação, as águas simplesmente sumiram e o lago secou.

A comparação com o mundo econômico pode ser rude, mas é emblemática da estupefação que desabou sobre dirigentes políticos, financistas, economistas, consultores e analistas de mercado, entre outras, figuras exponenciais de um cenário que de um dia para outro se transformou num autêntico mafuá.

Um evanescente fio de esperança, embora seja essa a esperança possível, foi estendido sobre o abismo pelo presidente do Federal Reserve (o banco central norte-americano), Ben Bernanke, ao anunciar que a maior economia mundial, a de seu país, os Estados Unidos, começará a entrar nos eixos em 2010. O mau presságio a servir de moldura às declarações de Bernanke foi materializado, entretanto, por sinais intermitentes quanto ao aprofundamento da recessão em vários países. A economia russa, por exemplo, fechou em janeiro uma taxa anual de contração equivalente a 8,8% caracterizando a desaceleração acentuada dos últimos meses e, lançando sobre 2009 as estimativas mais aziagas.

Os governos do G20, países que concentram 90% de toda a produção mundial, anunciaram a criação de um fundo de US$ 25 bilhões para calçar o negócio das exportações. A fórmula ideal está em estudos e deverá ser apresentada no próximo encontro do grupo, marcado para o mês de abril. Segundo Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), representantes oficiais da entidade estão dialogando com os técnicos do Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI), com o objetivo de ultimar os planos para a criação do fundo global.

Por sua vez, Bernanke se reportou a um quadro de dificuldades partilhadas em maior ou menor grau pelas principais instituições financeiras dos Estados Unidos, enfatizando que a crise financeira e a recessão parasitam uma à outra, injetando vigor a um círculo vicioso sem precedentes. A queda constante das bolsas e as restrições impostas às empresas no acesso ao crédito agravam o problema dos bancos na captação de recursos oriundos do capital privado, dando margem a uma política restritiva na concessão de empréstimos. Bernanke também incluiu no rol das adversidades as demissões em massa e a queda dos lucros, reputando-as como alimentadoras da inadimplência que assusta as instituições bancárias e espanta os consumidores das compras.

Um exemplo da voracidade da crise está sendo vivenciado no Brasil pelo setor de financiamento de veículos novos. Os bancos têm em mãos um estoque aproximado de 100 mil carros recuperados de clientes inadimplentes, sendo que a única opção é direcioná-los ao segmento de usados. Entretanto, o mercado de carros usados também está imerso num arrastado processo de queda nos preços, além da trava representada pela falta de liquidez.

Na exposição feita aos congressistas, o presidente do Federal Reserve afiançou que se as medidas adotadas pelo governo, com o respaldo de instituições de renome na vida do país, conseguirem recuperar uma parte da estabilidade financeira, “há uma probabilidade razoável de que a recessão atual acabe em 2009, e que 2010 seja um ano de recuperação”. O discurso de Bernanke teve como pano de fundo a somatória de esforços do governo para salvar do naufrágio a seguradora American International Group e o banco Citigroup, duas das mais poderosas corporações financeiras dos Estados Unidos que, numa solução antagônica ao livre mercado, provavelmente, serão controladas pelo próprio governo.

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