“Obama faz história.” Essa foi a manchete da edição de ontem do jornal The Washington Post, provavelmente a que sintetizou de forma objetiva, em meio às manifestações da imprensa em escala planetária, o real sentido da vitória do senador democrata Barack Obama, primeiro negro a exercer a presidência da economia mais poderosa da Terra. A tônica das análises, comentários e depoimentos pessoais sobre a eleição do senador democrata foi a palavra “mudança”, de superlativa exposição no principal mote da campanha, quanto dominante nos corações e mentes dos milhões de eleitores que acreditaram nas bandeiras da mensagem reformista e de exortação à esperança.

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Para o The New York Times, a vitória de Obama assumiu a proporção de uma “catarse nacional”, ou seja, o repúdio a um presidente republicano que descambou a níveis desastrosos de impopularidade, em decorrência das políticas adotadas para a economia e relações exteriores, elos de uma corrente que a arrogância sempre julgou inquebrantável, mas que acabaram se rompendo para escancarar diante de um mundo atônito as mazelas de uma administração naufragada numa sucessão incontrolável de equívocos, como as guerras do Iraque e do Afeganistão.

O presidente eleito fez o discurso de abertura da era Obama, para cerca de um milhão de pessoas reunidas numa área verde de Chicago, cidade onde nasceu para a vida pública, sublinhando que “a mudança chegou à América”, convidando a todos para uma oportuna reflexão: “Se ainda há alguém que duvida que os Estados Unidos sejam o lugar onde todas as coisas são possíveis, que ainda duvida que o sonho dos nossos fundadores esteja vivo em nosso tempo, que ainda questiona o poder de nossa democracia, aqui está a resposta”.

Com a conquista da maioria dos votos populares nos estados tradicionalmente simpáticos aos candidatos do Partido Democrata e, vencendo em pelo menos seis estados que em 2004 votaram no candidato republicano, já nas primeiras horas da madrugada de quarta-feira, Obama alcançava o número de 338 votos no colégio eleitoral que pela legislação norte-americana define o novo presidente, superando a marca dos 270 votos regulamentares para sacramentar a vitória. Ato contínuo, o candidato republicano John McCain reconheceu a derrota com um pronunciamento em sua base eleitoral de Phoenix (Arizona) e num telefonema ao oponente: “O povo americano falou e falou claramente”, admitiu.

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A imprensa mundial tornou-se a caixa de ressonância da vitória de Barack Obama e como bem salientou o artigo de fundo de ontem do diário espanhol El País, é difícil exagerar a importância de que os Estados Unidos elegeram seu primeiro presidente negro, um verdadeiro convite ao sonho, ao mesmo tempo surpreendente e revolucionário, palavras “que não parecem excessivas se pensarmos que até meio século atrás, no país das oportunidades, em alguns estados os negros tinham que ceder seus assentos nos ônibus a passageiros brancos”.

Obama terá pesados desafios a enfrentar no âmbito da economia e da política externa, sobretudo na atribulada questão dos conflitos no Iraque e no Afeganistão, onde estão acantonados alguns milhares de soldados norte-americanos. Há ainda a necessidade imperiosa de chegar ao governo com um plano devidamente aprovado em linhas gerais, com a finalidade de suplantar a crise financeira e o funesto desembarque da depressão econômica. Nesse momento de efervescência mundial segundo o historiador Jonathan Zimmerman, da Universidade de Nova York, a vitória de Obama não se circunscreve apenas aos Estados Unidos, mas deve ser saudada como “uma vitória para o mundo”, pois “sinaliza uma nova disposição americana de conversar com o mundo em vez de impor sua vontade sobre ele”. Consciente das dificuldades que terá pela frente, o próprio Obama compreendeu que os desafios do amanhã são enormes: “Duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise econômica em quase um século”. Navegar é preciso.

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