O assunto já saturou a paciência dos leitores, convenhamos, mas a constante revelação de novas e inesperadas facetas obriga os editores a mantê-lo em evidência. Não meramente porque o público chega ao paroxismo da satisfação ao ler notícias ruins, como doutrinou o mais recente teórico da comunicação de massa no Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, tampouco, para assumir um papel que todos sabem ser completamente inútil, pois a denúncia dos escândalos sistemáticos praticados pelos corsários da coisa pública sempre acaba em torno de uma fumegante pizza.

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Acontece que o Senado da República ocupa espaços infindos na mídia nacional, infelizmente não pelo valor altamente significativo da função de manter o equilíbrio do Poder Legislativo e fiscalizar os atos do Executivo, entre outras questões conexas, mas pela aberração da descoberta de seu aparelhamento por um reduzido grupo de vivaldinos que decidiu fazer daquele privilegiado nicho do serviço público um trampolim para a obtenção de ganhos ilícitos.

Há indícios suficientes para afirmar que o grupelho chefiado por Agaciel Maia, diretor-geral exonerado da função comissionada há alguns meses, mas ainda funcionário de carreira da instituição adquiriu vantagens de nomeações e exonerações respaldadas em atos secretos, que jamais tiveram o competente registro efetuado nos documentos oficiais da Casa. Como uma conta secreta da instituição na Caixa Econômica Federal (CEF), com depósito aproximado de R$ 4 milhões.

A suposição carregada de veracidade foi levantada pelo senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que solicitou a abertura de inquérito específico para tratar da suspeita de que Agaciel teria montado um esquema irregular de nomeações de interesse de aliados, mediante a utilização dos atos secretos. A operação era relativamente simples, segundo o raciocínio do senador goiano. Diante da relação de cargos vagos nos gabinetes, o diretor-geral nomeava secretamente os ocupantes dessas vagas, exonerando-os quando o senador tomava a decisão de preencher a função com um assessor de sua própria escolha.

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Talvez esteja aí o elemento que faltava para desnudar a verdadeira dimensão do amontoado de mais de 650 atos secretos, afinal, um inominável escárnio à administração pública que não poderá permanecer impune, mesmo que a benevolente catilinária do presidente Lula, num momento infeliz de sua incontinência oratória tenha dado a entender ao povo que o melhor é colocar as barbas de molho, pois a denúncia dos escândalos, como das outras vezes, logo será esquecida.

Ainda mais quando se referem a gente incomum, cuja história os coloca acima de quaisquer suspeitas, como o ínclito senador José Sarney, que até mausoléu já mandou edificar em São Luís do Maranhão, em antigo mosteiro tombado como patrimônio histórico e, portanto, vedado a esse tipo de utilização. Ao que parece, o senador que também ganhou uma cadeira entre os imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL), não está preocupado com questões insignificantes, quando em suas cogitações está a necessária preservação da memória, da monumental biblioteca e da farta documentação amealhada por um dos maiores brasileiros desde a deglutição do bispo Sardinha.

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O senador Demóstenes Torres desconfia que o mesmo expediente foi usado em outros gabinetes, daí a iniciativa de solicitar a abertura de inquérito disciplinar com o reforço de uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). Há quem sustente a opinião de que a Polícia Federal deve ser urgentemente convocada para investigar todas as suspeitas de fraudes cometidas pelos administradores do Senado. Caso se constate a responsabilidade pessoal de Agaciel Maia, a punição inevitável será a exoneração a bem do serviço público e a proibição do exercício de cargos públicos por dez anos.

A litúrgica resignação de Sarney está sendo posta à prova. A Casa quer respostas rápidas para acalmar uma tormenta a cada dia mais forte. O problema é que cortar na própria carne jamais constou dos usos e costumes dos homens públicos brasileiros. Talvez Lula não esteja anunciando nenhuma novidade.