Entraves ao café solúvel

O Paraná é o maior exportador de café solúvel do País, através da Companhia Cacique, com duas fábricas em Londrina, e da Companhia Iguaçu, com fábricas em Cornélio Procópio. Esse segmento industrial está sendo duramente penalizado por ausência de medidas governamentais. O Brasil está deixando de aproveitar um momento favorável da conjuntura internacional para gerar pólos agregadores de valor a produtos que já tenham comprovado sua competitividade no mercado internacional, como é o caso do café solúvel.

A política monetária exercitada pelo País, valorizando a moeda e praticando taxas de juros das mais elevadas no mundo, tem ocasionado uma série de efeitos negativos na economia. Com dólar barato e a política de criar incertezas sobre a utilização do drawback para a importação de matéria-prima, no ressarcimento dos créditos tributários e na tomada de posição mais agressiva do governo em relação a barreiras tarifárias na Europa impostas ao produto industrializado, o Brasil deixa de ser atrativo para empresas interessadas em usar o País como plataforma de exportação.

O Brasil tem vantagens comparativas históricas na produção de café e a industrialização do produto não tem merecido a atenção necessária para que o País lidere as exportações do café com maior valor agregado. A argumentação dos técnicos governamentais para manter uma paralisia angustiante em relação à imposição de tarifas discriminatórias contra o café solúvel brasileiro no exterior, exigindo comprovação efetiva da perda de mercado para só depois tomar uma decisão, pode ser explicado pelo fato de os sinais acentuados de perda de mercado ainda não serem visíveis. As empresas investiram pesadamente para conquistar clientes e estão honrando contratos antigos e continuam a exportar, mesmo com margens diminutas, ou até com prejuízo, na esperança de conseguir reverter o quadro negativo em que se encontram, esperando que o governo decida efetivamente optar por priorizar as exportações de maior valor agregado.

Quanto mais tempo passa, mais ocorre um avanço das indústrias de outras economias emergentes sobre o mercado duramente conquistado pelo solúvel brasileiro. Estimuladas pelo tratamento tarifário diferenciado no grande mercado europeu, várias fábricas novas estão sendo implantadas em países produtores de café com o objetivo de substituir o café solúvel brasileiro. No momento em que essas plantas estejam funcionando, a tarefa de reconquistar o mercado perdido será muito mais custosa e demorada.

No ano de 2006, aumentaram os investimentos das empresas brasileiras no exterior com abertura de escritórios, compra ou montagem de fábricas em outros países, movimento que ocorreria normalmente, mas foi antecipado pela valorização do câmbio. Na indústria de café solúvel, isso já está ocorrendo para minimizar os impactos negativos da valorização cambial, da enxurrada de impostos internos no Brasil e da barreira tarifária que incide sobre as exportações brasileiras para a União Européia. Com isso, o Brasil não está criando emprego. A economia está se conformando em ser produtora de commodities quando o que precisa é forte investimento em produtos mais sofisticados.

A solução cada vez se faz mais clara e repousa na ênfase à agregação de valor nas exportações de café. O Brasil tem vantagens comparativas naturais e desenvolvidas ao longo de mais de 250 anos da introdução do café no País. A indústria de café solúvel é um caso de sucesso na cadeia café. Desenvolveu tecnologia de ponta, produz cafés de diversas formas: spray, liofilizado, líquido e o exporta 50% já embalado para o consumidor final, com marcas próprias brasileiras. Fornece o café solúvel líquido para ser embalado em latinhas no grande mercado asiático, que as oferece nas ?vending machines? localizadas em centros de grande aglomeração humana, introduzindo um novo conceito de marketing no mercado de café, enfim, adequou-se às novas condições mercadológicas, mas não encontra respaldo interno para prosseguir em sua trajetória vitoriosa. De um lado, esbarra na inércia governamental em não eliminar os entraves ao uso do instrumento do drawback (importação temporária com fins específicos para exportação), limitando o poder de competitividade da indústria no mercado internacional, de outro acumula créditos de ICMS, PIS e Cofins que se transformam em ônus financeiro para a indústria exportadora e, finalmente, não encontra respaldo governamental para eliminar a tarifa discriminatória imposta pela União Européia nas suas importações do café solúvel proveniente do Brasil.

O dramático de tudo isso é possuir as condições básicas para conquistar novos mercados, aumentando a participação do café brasileiro no mercado internacional, e não conseguir convencer os ?policy makers? do governo sobre o melhor caminho a seguir que, com certeza, não é a mera observação estática dos acontecimentos para certificar-se da concretização dos fatos previstos – a perda do mercado europeu – para só depois intervir, pois esse caminho é o mais custoso, o mais penoso e o que maior impacto negativo terá na criação de emprego e renda no Brasil.

Léo de Almeida Neves é membro do Conselho Deliberativo da Política do Café, ex-diretor do Banco do Brasil.

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