Passou como um relâmpago a fase discursiva em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se encheram de razão para bradar que os efeitos da crise financeira não seriam sentidos no Brasil. Quando muito, iríamos sentir uma “marolinha”, esnobou o presidente Lula. Ao longo do mês de outubro, no entanto, as loas de que a inabalável estrutura de nossa da economia nada sofreria despencaram como folhas ressequidas, de tal forma que a realidade atual apenas confirma uma intuição generalizada: a crise é violenta e vai se estender por muito tempo.
Decerto logo vão aparecer outros, mas o primeiro impacto já identificado se refere às previsões da safra a ser colhida no próximo ano, cujo prognóstico inicial formulado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela a queda de 3,3%, ficando a produção estimada em 140,8 milhões de toneladas. Desde 2005, quando a produção foi gravemente afetada pela instabilidade climática, não houve registro de quedas expressivas na agricultura brasileira que, entretanto, na temporada 2008/09 terá de se haver com o temido vilão da crise mundial.
As previsões da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ligada ao Ministério da Agricultura e Abastecimento, sobre a próxima safra, apresentam ligeiras diferenças numéricas em função da metodologia aplicada, embora seja coincidente na diminuição do prognóstico. Segundo dados da Conab, a queda ficará entre 1,4% e 2,9%, devendo a colheita variar entre 139,66 milhões e 141,83 milhões de toneladas. Para os técnicos do governo, a novidade foi constatar a queda de produção na primeira estimativa de safra para o ano seguinte. Um dado estimulante, porém, está na expansão do cultivo de alimentos básicos como feijão e arroz, graças ao incentivo das políticas de apoio adotadas pelo governo para garantir a formação de estoques suficientes para atender a demanda interna.
Contudo, a constatação de queda na previsão da safra de 2009 foi reforçada pelas informações apuradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o encolhimento das expectativas de investimento, tendo como resultado uma safra com menor uso de tecnologia. E a causa principal dessa restrição, relatada pelos próprios produtores, está na incerteza gerada pela crise financeira, a dificuldade na obtenção do credito e a elevação dos preços de sementes, fertilizantes e herbicidas. Um complicador no planejamento dos produtores veio com a suspensão da atividade das tradings que adiantavam crédito ao agricultor em troca de produto.
Esta situação pressionou a diretoria do Banco do Brasil (BB) a acelerar a liberação do crédito de custeio para a safra de grãos referente ao ano agrícola 2008/09. Durante o primeiro quadrimestre do ciclo encerrado em 31 de outubro, a instituição realizou operações de crédito rural estimadas em R$ 11,7 bilhões. Até 31 de dezembro, no final do primeiro semestre do ano-safra, o BB deverá aplicar mais R$ 10,8 bilhões no custeio da agricultura empresarial, com acréscimo de 45% na comparação com período igual na da safra anterior. Para o segmento da agricultura familiar, o banco vai emprestar R$ 3,2 bilhões (20% a mais que na safra 2007/08). Segundo José Carlos Vaz, diretor da área de Agronegócios, a demanda crescente foi atendida de maneira satisfatória.
Outras medidas de apoio à produção rural foram definidas pelo governo para aliviar os efeitos da crise. Dentre elas a criação de uma linha de crédito para refinanciar uma parcela de R$ 1,2 bilhão de dívidas vencidas em operações de investimento na região Centro-Oeste. O ministro Reinhold Stephanes disse que o governo estuda uma linha de crédito de R$ 2,5 bilhões, a ser operada pelo Banco do Brasil, com o objetivo de garantir capital de giro para tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos. O ministro disse, ainda, que se houver especulação, o governo tem recursos para segurar os preços e os estoques reguladores, afirmação que certamente a sociedade vai cobrar.