Educação como proposta de valores

Ser educador é mais do que ser simples professor, como costumo insistir. E educação é mais do que instrução, transmissão de conhecimentos, facilitação do processo de aprendizagem, ou formação intelectual e técnico-profissional. E por que teria de ser assim? Simplesmente porque a educação não deve ensinar apenas a ganhar a vida, mas a viver. O educador Paulo Freire afirma que ?educar é, fundamentalmente, formar?. Esta frase resume, com perfeição, o que se quer dizer. Usa-se aqui a palavra ?formar? não no sentido de impor uma ?fôrma? (molde) para que o educando nela se enquadre, mas no sentido de dar ?forma?, expressão, tratamento e estrutura ao potencial interno de cada um.

Para o educador Alceu Amoroso Lima, o bom professor não procura simplesmente moldar o aluno, mas ?revelar o aluno a si mesmo, trazer à luz o que, sem ele, poderia ficar dormindo no fundo de uma consciência amorfa e infecunda. Gandhi, mesmo sem ter sido professor, dizia que a verdadeira educação consiste em fazer aflorar o que há de melhor dentro das pessoas.

Valores são os elementos que dão significado à vida. E o trato com os valores é responsabilidade do autêntico educador. Ele não considera importante somente proporcionar uma formação integral e humanista ao futuro profissional, mas, sobretudo, sabe que tem o compromisso de melhorar a alma humana, como enfatizava Amoroso Lima. Em seu discurso, por ocasião do Jubileu dos Professores Universitários realizado em Roma, João Paulo II recomendava aos mestres da academia: ?Como homens de ciência, interrogai-vos continuamente sobre o valor da pessoa humana?. Em outro texto, ao se referir ao momento atual de enorme crescimento científico, tecnológico e econômico do mundo, ele ressalta a importância e a urgência da tarefa da universidade de dedicar-se à procura de significado, a fim de garantir que as novas descobertas sejam usadas para o bem autêntico dos indivíduos e da sociedade.

Embora fazendo a distinção entre ser professor-instrutor e professor-educador, entre a formação intelectual ou técnica e a educação integral, entenda-se que ambos devem ser complementares. Não se pode, naturalmente, permitir o surgimento de dicotomias que venham a ser prejudiciais. Seria ingenuidade pensar que um educador, por mais zeloso que fosse, pudesse ser dispensado da competência técnica e do conhecimento científico. Da mesma forma, que um aluno pudesse sair da universidade enriquecido na dimensão humana, porém desqualificado como profissional em sua área específica. Não é difícil perceber a impropriedade e o perigo de tal dicotomia.

A antítese estabelecida entre instrutor e educador é apenas didática e corre o risco de ser falaciosa. O professor não pode contentar-se com a simples condição de instrutor, pois ele só se realiza plenamente ao ser também educador. Um professor que, em suas atividades, descuida a preocupação com valores, não está contribuindo para a formação dos seus alunos. Pelo contrário, favorece a sua deformação, porque repassa a idéia de que os valores não são importantes, mas dispensáveis.

Embora complementares, numa escala, esses dois lados apresentam grandezas diferentes. Ser educador é, em termos de valor, mais do que ser meramente professor, como a educação integral é mais do que a educação profissional, simplesmente porque o mais inclui o menos. A educação integral contempla a profissional, e o educador supõe o bom professor. Assim pensada, a educação ultrapassa a simples transmissão de informações, empenhando-se no cultivo de valores. A escola, pois, precisa ser o canteiro da paz, da solidariedade e da virtude, enfim, uma instituição a serviço do bem.

Clemente Ivo Juliatto é reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e membro da Academia Paranaense de Letras e do Conselho Municipal de Educação de Curitiba.

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