A primeira pesquisa Datafolha sobre o segundo turno das eleições na cidade de São Paulo, divulgada ontem, revelou um panorama pouco inspirador para os operadores da campanha de Marta Suplicy (PT). Caso a eleição tivesse ocorrido ontem, o atual prefeito Gilberto Kassab (DEM) seria reeleito com folgados 54% dos votos válidos contra os 37% da ex-ministra do Turismo. A razão fulcral da diferença de 17 pontos percentuais entre Kassab e Marta, segundo se apurou na pesquisa, reside na migração quase absoluta dos eleitores que votaram em Geraldo Alckmin no primeiro turno, mas agora se mostram dispostos a permitir que o prefeito se mantenha no cargo.
Aliás, o primeiro tucano emplumado a falar dessa probabilidade foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista coletiva na última terça-feira, na qual explicitamente declarou não ver nenhum impedimento no desembarque imediato do PSDB na campanha do prefeito Gilberto Kassab que, decerto por essas horas, tem motivação especial para tornar ainda mais produtivo a agenda traçada para o período de pouco mais de uma quinzena restante para o segundo turno. Se o prefeito conservar o índice eleitoral mostrado pelo Datafolha, ou seja, se não conquistar nenhum eleitor novo até o dia 26 de outubro, a oponente Marta Suplicy terá de realizar a hercúlea tarefa de conquistar, pelo menos, um ponto percentual ao dia para encostar e, numa reta final eletrizante disputar voto a voto com Kassab a cadeira de prefeito da maior cidade do País.
A tarefa de Marta teria de começar pela atração dos 5% que admitem a opção pelo voto branco ou nulo e dos 3% que ainda não escolheram em que candidato votar. Esse acréscimo no percentual de agora ajudaria a candidata petista a galgar preciosos degraus até o patamar de 45%. Mesmo assim, ainda estaria diante do desafio de convencer uma expressiva fatia do próprio eleitorado kassabista a mudar de idéia. Convenhamos que a tarefa não é impossível, sobretudo porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá programar visitas a São Paulo a fim de reforçar a campanha de Marta, e dos demais companheiros petistas que estão no segundo turno em municípios importantes do ABC, com o cuidado de evitar ressentimentos com partidos da base. O problema é que a transferência de votos é uma mercadoria em falta nas prateleiras da política brasileira, e Lula sabe disso como ninguém.
Portanto, se a tarefa não é impossível, será extremamente penoso desviar a corrente de votos de um prefeito que tem a seu crédito uma administração bem-avaliada, sobretudo, pela extensa faixa da população de classe média. Além disso, Kassab conta ainda com o respeitável trunfo de ser uma grata novidade num retrato que envelheceu juntamente com a maioria dos que, há décadas, se esfalfam para aparecer nos lugares mais privilegiados da ribalta.
Assim como São Paulo, o Rio de Janeiro também causou surpresa com a bela performance do deputado Fernando Gabeira (PV), que a pesquisa Datafolha mostra em situação de empate técnico com Eduardo Paes (PMDB). Na verdade, em se tratando do eleitorado carioca quase tudo se pode esperar e, nem seria esta a primeira vez que uma surpresa brotaria das urnas. O sinal claro foi emitido na última semana do primeiro turno, quando Gabeira cresceu para cima do bispo Marcelo Crivella (PRB), alijando-o do páreo. Hoje o candidato do Partido Verde teria 51% e Eduardo Paes 49% dos votos válidos ou 43% a 41% respectivamente, incluindo brancos, nulos e indecisos. A definição do novo prefeito do Rio será dramática. Gabeira consegue puxar os votos de Jandira Feghali (PCdoB) e até de Solange Amaral (DEM), que naufragou arrastando o atual prefeito Cesar Maia.
Gabeira não sonhava com votos da seara do bispo Marcelo Crivella, embora a pesquisa diga que é grande a proporção de católicos, espiritualistas, umbandistas, sem religião e, pasmem, evangélicos e pentecostais convencidos a votar no homem da sunga. o para negar apoio ao prefeito Gilberto Kassab, que hoje comemora o belsidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista coletiva.