Adriano Benayon

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Palocci continua congratulando-se com a suposta imunidade da economia em face da ?crise política?. Subjacentes a esse discurso estão duas falácias: 1) ?a economia vai bem?; 2) ?a política está em crise?.

As altas da bolsa, do real, das exportações, dos lucros de bancos e grandes empresas não significam que a economia esteja bem. Para isso seria necessário: a) melhorar a estrutura produtiva e a infra-estrutura; b) elevar o progresso tecnológico; c) aumentar os salários e o emprego.

Os apregoados 3,38 milhões de empregos, nos 32 meses de Lula, significam média mensal de 105,6 mil, i.e., 1,27 milhão/ano. Deduzidas as demissões, sobra menos de 1 milhão, enquanto a população economicamente ativa (PEA) cresce em mais de 2 milhões por ano.

A euforia dos ?mercados? reflete o estado de espírito dos grandes ?investidores? institucionais, como bancos, seguradoras, fundos de pensão, etc. Há aí uma espécie de mundo fechado em si mesmo, retroalimentado por vieses ideológicos, com capacidade limitada de se pôr em sintonia com a economia real.

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A valorização da moeda prejudica as exportações e favorece as importações de bens sujeitos a competição. Estimula, ainda, a remessa oficial de lucros ao exterior, a qual montou a U$ 7,9 bilhões, em só oito meses de 2005, subindo 72,3% em relação a 2004.

Os superávits comerciais decorrem de exportações intensivas de recursos naturais, que o Brasil não deveria dilapidar. Derivam também da conjuntura mundial, pois capitais estão fugindo de bolhas em mercados financeiros e fazendo crescer a demanda por matérias-primas.

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A Argentina também mostra superávit comercial em alta e não ficou só nisso. O PIB (Produto Interno Bruto) argentino cresce em média anual superior a 8%, nos três últimos anos, enquanto o Brasil não consegue sequer 3%. Embora a Argentina não tenha reformado estruturas, nem realizado investimentos espetaculares, tampouco manietou a economia com políticas fiscal e monetária depressivas.

A qualidade horrorosa dessas políticas no Brasil fica clara pelo fato de a dívida interna não parar de crescer e pelo fato de a dívida externa não estar sendo reduzida, mesmo havendo superávit na conta corrente com o exterior. O Tesouro Nacional já emitiu, em 2005, títulos externos, no montante de US$ 7 bilhões.

Mais dívida para quê? A União nada investe em infra-estrutura, a qual se torna sucata. Para ser exato, investe 0,2% do PIB, enquanto arrecada cerca de 24% do PIB. Deixa de usar a enorme receita tributária para o bem do País e, ainda por cima, faz dívidas novas.

Isso não é de admirar, diante de taxas reais de juros recordes no mundo. Por que têm elas de ser cinco vezes mais altas que as de países nos quais a relação dívida líquida/PIB é maior que a do Brasil? De fato, entre as desculpas esfarrapadas para o saqueio, está a de que o risco ligado a uma elevada dívida pública justifica taxas abusivas.

Eis alguns países com valores maiores naquela relação (a do Brasil é 52): Argentina, 118; Israel, 105; Itália, 106; Grécia, 112; Japão, 164. Eis mais alguns acima de 52: Alemanha, Arábia Saudita, Áustria, Bélgica, Espanha, Hungria, Índia, Indonésia, Quênia, Marrocos, Moldávia, Países Baixos, Paquistão, Portugal, Sérvia e Suíça (dados de 2004).

Passemos ao sofisma da ?crise? política. A política com ?p? minúsculo não está em crise. Está podre, há tempo. Trata-se de crise controlada pelo sistema de poder para fins específicos. Quando aparecem denúncias acerca de políticos comprometidos com a política econômica, quer militem no ?governo? ou na ?oposição?, instâncias dos três poderes da República tratam de evitar o aprofundamento das investigações.

É principalmente para assegurar essa política que, de há muito, nasceu o mensalão, negado, mesmo depois das evidências, por parlamentares, inclusive membros das CPIs, nas quais, em geral, nada de sério é levado adiante, mesmo quando algo começa a ser levantado.

Tratamento bem diverso recebem políticos pouco envolvidos com a política econômica. Desse segmento saem os selecionados para pasto dos leões e alvo da ira popular na grande arena que a mídia oferece ao público.

Adriano Benayon é doutor em Economia. Autor de ?Globalização versus Desenvolvimento?. Editora Escrituras. benayon@terra.com.br