No século XIX, em 1871, no seu jornal As Farpas, o notável Eça de Queiroz, ícone da literatura lusa, indignado com a realidade vivida em Portugal, testemunha: ?O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres rompidos. A prática da vida teve por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja escarnecido. Ninguém se respeita. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia?.
No século XX, no Brasil, em 8 de março de 1919, na Associação Comercial do Rio de Janeiro, na campanha presidencial que disputava contra Epitácio Pessoa, o discurso de Rui Barbosa, um brasileiro que excluía a palavra medo do seu dicionário pessoal, proclamava: ?Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde segundo o Padre Vieira (que não chegou a conhecer a oligarquia comandada por José Sarney, digo eu) o próprio sol mentia ao Maranhão, e direis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, nas palavras, na escrita?.
E prosseguia o indomável brasileiro: ?Mentira nos partidos, nas coligações, nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados à nação. Mentira nas instituições. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas garantias. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira. Uma impregnação tal das consciências pela mentira que se acaba por não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos e muitas vezes não sabem se estão ou não mentindo. Um ambiente, em suma, de mentiraria, que depois de ter iludido ou desesperado os contemporâneos, corre o risco de lograr ou desesperar os vindouros, a posteridade, a história, no exame de uma época em que a força de se intrujarem uns aos outros, os políticos, afinal se encontram burlados pelas suas próprias burlas e colhidos nas malhas da sua própria intrujice?.
Nesse início de século XXI, as proclamações angustiadas de Eça e de Rui retratam que não foram palavras jogadas e consumidas pelo vento. Não foram vazias, daí se perpetuarem pelos tempos e retratarem realidades que se fazem presentes. O poeta gaúcho Mario Quintana, na sua admirável criação dizia que ?a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer?.
Lamentavelmente, no Brasil oficial, muitos arautos com responsabilidade governamental acreditam que mentira e verdade são sinônimos. Pelas bandas da oposição predomina um comportamento passivo que beira a incompetência. Com isso ajudando a prevalecer o status de mistificação. Os fundamentos da democracia exigem ação ativa da oposição. Por exemplo, demonstrando que o governo Lula está desenvolvendo projetos do governo que o antecedeu. Ao chegar ao governo, abandonou a sua pregação e os seus próprios projetos. É dever da oposição democrática não se lamuriar pela expropriação dos seus projetos pelo governo. Ao contrário, ouvindo vozes qualificadas, a exemplo do professor Emil Sobottka, da PUC do Rio Grande do Sul, dentre tantos pensadores, que afirma: ?O governo Lula está tocando o projeto de outros. Isso é que está incomodando a oposição, que ficou sem projeto e sem discurso. O PT, na oposição, dava a impressão de que queria conquistar a sociedade para reorganizá-la. Mas, quando chegou ao poder, tornou-se um partido autoritário, que não aceita a população opinando sobre os rumos do governo?.
A democracia política nativa só tem a ganhar com uma oposição séria e qualificada que enfrente o debate claro, expurgador do reino da mentira. Sob pena de os fantasmas de Eça de Queiroz e de Rui Barbosa ocuparem o espaço vago.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.