E assim descaminha a América Latina

Fica cada vez mais evidente a constatação das causas que impedem a evolução democrática e social do povo latino-americano. As amarras que prendem a respiração deste povo aparecem cada vez mais nítidas. Ao invés de andarmos para a frente, damos gigantescos passos para trás, favorecendo o lucro fácil das grandes empresas nacionais e transnacionais, com os lobistas dessas corporações infiltrados dentro dos três poderes, burocratizando decisões, burlando licitações. Pior ainda: com o apoio incondicional da grande imprensa.

A involução democrática pode ser observada agora com a tragédia no Aeroporto de Congonhas. A imprensa deixa a razão de lado para discutir justamente o ponto que mais interessa aos políticos, em sua maioria representantes das forças empresariais e/ou interessados nas próximas eleições: a procura pelos culpados. Os jornalistas brasileiros, de bate-pronto, abriram a discussão sobre este ponto, mostrando as razões que podem ter contribuído para a tragédia: a burocracia da Anac, as ligações ?perigosas? entre Anac e empresas aéreas, a falta de agilidade e a incompetência da Infraero, a pista malfeita e perigosamente liberada para o tráfego aéreo.

Com essa angulação, a polêmica abre espaço para que os políticos se assanhem, tirando do foco o verdadeiro objetivo daquilo que deveria ser o trabalho jornalístico: mostrar as conseqüências do acidente, por exemplo, como ficou o trânsito, onde pode pegar fogo, de onde sairão os próximos vôos, como deveriam agir os parentes das vítimas, quais os hospitais mais próximos, como os moradores vizinhos do aeroporto devem agir, para onde devem ir, quantos funcionários da TAM estavam no prédio no momento do choque, quem eram eles, etc., etc., etc.

Nada disso foi feito, absolutamente nada disso foi mostrado ou publicado, nada relacionado ao interesse público -fundamento principal da existência da imprensa.

O que a imprensa brasileira mostrou no primeiro instante foi uma vociferação geral sobre as causas, uma cobrança absurda dos responsáveis (trabalho que está sendo feito por quem de direito), e ainda por cima entrevistinhas nojentas com quem poderia ter embarcado e não embarcou.

Horrorosa a cobertura do Jornal Nacional: foi a pior de todos os tempos da TV Globo, nunca se viu tanto despreparo assim, tanto repórter ineficiente, tanta informação errada. Deu pena dos apresentadores. Pudera, os melhores repórteres estavam cobrindo o pan, todos, inclusive os correspondentes estrangeiros. Os melhores equipamentos estavam no pan, um evento que teve uma dotação orçamentária superfaturada, mal-explicada, uma organização burocrática desastrosa (capa do jornal inglês Time desta segunda-feira) – fatos que não foram divulgados no Brasil, país sede dos jogos.

Ao analisar a trajetória do avião na pista, cada rede de TV deu uma versão diferente, cada jornal impresso deu a sua, no afã de sensacionalizar a tragédia. Desculpem-me, senhores jornalistas responsáveis por essa cobertura, mas não é assim que se trabalha. Uma tragédia desse porte exige que o Jornal Nacional ou o da Record ou o da Band dedique todos os seus segundos à tragédia, dando ao telespectador todas as informações sobre o fato, para que ele forme opinião e ele, aí sim, ele, telespectador, vocifere e por fim vote. É para isto que serve a imprensa: para formar opinião pública, e não para induzir a opinião pública. Se a imprensa brasileira ainda formasse opinião pública, com certeza o Alckmin teria sido eleito.

Não se analisou ainda o porquê do Airbus não ter conseguido arremeter. Informações de especialistas dizem que o avião tocou o solo no ponto certo, não se desviou, correu em linha reta. Por que não parou? Não se analisou o trabalho dos fiscais do Estado de São Paulo, que deveriam ter embargado a obra da pista. Será que aconteceu o mesmo problema do buraco do metrô, quando os fiscais do estado foram liberados pelo governo? Fiscal tem que fiscalizar.

No primeiro instante da tragédia, quando as redes de TV mostram sua competência, disputando agilidade, o telespectador brasileiro ficou a ver navios. Ou melhor, a ver o pan. O País inteiro estava grudado no pan, as redes tendo que cumprir seus contratos publicitários, o jornalismo amarrado ao comercial. Um problema que enluta a ética da profissão. Uma cara-de-pau sem fim. O pan é mais importante que a cobertura de uma tragédia que pode ter atingido mais de 400 famílias. Nunca se viu um patriotismo tão exacerbado. Na verdade, ser patriota não tem nada a ver com esporte. Ama-se alguém, um país, um povo, o cidadão que dá amor e trabalho e recebe em troca amor e a recompensa por seu trabalho. Isto é ser patriota.

A Rede Globo cometeu nesta terça-feira o mesmo erro do ano passado, quando caiu o avião da Gol na Amazônia: não mostrou nada. Naquela tragédia, apenas uma nota pelada – as matérias da campanha política foram mais importantes do que a queda do avião. Nesta terça, o pan foi mais importante. Lamentável.

Tudo o que aconteceu deixou à mostra as amarras que prendem a evolução – está na hora de a sociedade, por sua conta e risco, desatar esse nó. E mudar de canal.

Márcio Varella é jornalista.

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