Gaudêncio Torquato
Com 200 votos, Luís Pereira, pintor de paredes, ganhou o cargo de deputado federal, em Pernambuco, suplente que era de Francisco Julião, comandante das Ligas Camponesas, eleito em 1962 e cassado em 1964. Chegando a Brasília, lhe foi perguntado: ?Como está a situação??. Simplório, mas querendo fazer bonito, foi logo desembuchando: ?As perspectivas são piores do que as características?. O nobre deputado jamais imaginaria que, 41 anos depois, a perífrase quase filosófica viria a calhar como o melhor diagnóstico para definir o atual momento nacional. Pois as perspectivas que se apresentam, a partir das pesquisas que mostram ?desaceleração geral? no País e queda na avaliação positiva de Lula e de seu governo, não são das melhores. E as características destes tempos de desvendamento de escândalos, se bem que tensas e tumultuadas, ainda podem ser razoavelmente administradas, bastando ver a intensa mobilização do aparato governamental, que inclui até a ?nomeação? do maestro da orquestra, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, como ?coordenador? provisório para barrar a CPI Mista dos Correios. O risco é a economia acabar navegando na canoa furada da politicagem.
O fato é que o governo Lula vive seu instante mais atípico. Acossado pela iminência de instalação de duas CPIs, que poderão se transformar em tuba de ressonância de desmandos na administração federal, perturbado em razão da previsão de queda continuada de índices econômicos, o governo não tem alternativas para reverter o sufoco a que está submetido. O efeito das denúncias do deputado Roberto Jefferson já começa a ser devastador para o PT, que durante mais de 20 anos organizou uma tonitruante banda de música acostumada a tocar refrãos do tipo ?transparência já, CPI já, democracia já, fora FHC?.
A mobilização de forças que o governo e o PT estão promovendo para contornar as denúncias de corrupção e a apuração de negócios escusos em seus domínios gera uma gigantesca bolha de contrariedade em núcleos centrais e periféricos. Como as denúncias estão escancaradamente expostas ao crivo da opinião pública, não sairão de foco tão cedo. Primeiro, porque as oposições se esforçarão para dar ressonância aos casos. Depois, porque a mídia sabe que o rolo da corrupção é como novelo que se vai esticando à medida que se puxa o fio. O jogo de pressão e contrapressão poderá alargar o despenhadeiro em que se encontra a imagem do governo.
Se o clima político aponta para acirramento de tensões e intensificação da guerra entre facções governistas e oposicionistas, medidas paliativas ou jogadas para platéias não conseguirão amenizar a crítica social. A decisão do governo de realizar pregões eletrônicos para as compras da União, tornando mais transparente o acerto de preços, apesar de oportuna, é compressa na metástase do corpo federal. Cobre parte da ferida, não o todo. Choque moral, como promete Lula, só mesmo se causar impacto e provocar atitudes morais. Moralidade, porém, neste País, quando nasce por decreto, já sai meio torta. Haverá sempre um jeito de driblar a norma. Aliás, este mesmo choque moral inspirou a promessa de um partido de direita, o PP, não o do Severino, agora sob tiroteio, mas o de Portugal (Partido Popular), por ocasião das eleições legislativas antecipadas de 20 de fevereiro passado. Quisesse efetivamente promover um choque para resgatar a credibilidade em queda, Lula enxugaria o ministério, tiraria apadrinhados políticos de cargos-chave da administração, colocaria no lugar perfis técnicos, conclamaria partidos para o compromisso cívico de impor barreiras ao fisiologismo predatório e incentivaria a reforma política, entre outras medidas.
Escopo desse tamanho é para governante grande. Lula, como se percebe, apequena-se. Vai ficando menor que os mais baixos na medida em que se esvai o tempo de governo. E a razão é conhecida. A imagem de gigantes éticos, historicamente lapidada por Lula e pelo PT e inspirada em virtudes absolutas, aparece agora completamente desfigurada. Os costumes execráveis da política e as vontades despudoradas de partidos guiados pelo cifrão balizam decisões e dão o tom maior da política. Como pano de fundo, ouvem-se clamores se alastrando contra os rumos da política econômica. E, no traçado da estatística, a economia começa a descer a ladeira. Até o crescimento do PIB, o anunciado e comemorado índice de 5,2%, foi rebaixado para 4,9%.
A crise das ilegalidades toleradas, de cunho fundamentalmente político, pode resvalar para a área econômica. Palocci está sendo convocado para administrar a crise. Pressões por mudanças na economia, pulmões sociais clamando por avanços que não vieram e cofres abertos, nas proximidades do pleito presidencial, formam a receita ideal da turbulência. É fácil deduzir: o fator político, com a carga negativa que carrega, poderá ser vital para Lula. O famoso bordão que inspirou a primeira campanha de Bill Clinton, nos EUA, de autoria de James Carville – ?é a economia, estúpido? -, vai ganhando por aqui outra versão: é a corrupção, estúpidos!
Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político.