O PMDB deverá viver até o mês de junho próximo, data-limite para a realização de seus congressos estaduais, a situação probante do equilibrista sobre o fio de arame estendido sobre o vazio, dividindo-se ambiguamente entre as pré-candidaturas da ministra Dilma Rousseff e do governador José Serra (PSDB) à sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva. A ambivalência, aliás, uma das marcas registradas do partido-ônibus, na melhor definição legada à política brasileira pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, facilita à agremiação desfilar pela Esplanada dos Ministérios com a titularidade de meia dúzia de pastas importantes, inúmeras diretorias de estatais de primeira grandeza, além da confortável posição de maior bancada da base governista no Congresso Nacional.

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Assim, o partido tentará levar o barco em maré mansa, fugindo das vagas mais encapeladas como as sopradas pelos senadores Jarbas Vasconcelos (PE) e Pedro Simon (RS), dois notórios (mas isolados) denunciantes da tendência acomodatícia do PMDB, sobretudo quando é aquinhoado por suculentos nacos do poder. Numa coincidência, no mínimo pedagógica, um dos filmetes da propaganda gratuita a que o partido teve direito nos meios eletrônicos, diz uma das jovens postadas sob um secador de cabelos que o partido sempre fica ao lado do governo, quando este se posta ao lado do povo. Se a situação é oposta, o partido sempre foi do contra.

Os cidadãos que têm razões de sobra para duvidar dessas boas intenções, diante das provas abundantes de que na prática a teoria é sempre outra, advertem em alto e bom som que o partido perdeu excelente oportunidade para explicar à sociedade, se está do lado do governo em atenção à cornucópia de ministérios e postos diretivos em empresas estatais, ou, por estrita devoção ao princípio programático de optar pelas causas da população, como convém aos partidos genuinamente democráticos. Nesse momento, a resposta a essa indagação parece muito clara à maioria dos eleitores.

O partido está retalhado em feudos que atendem às palavras de comando do senador José Sarney, atual presidente do Senado e cacique no Acre e no Maranhão, e de seu colega alagoano Renan Calheiros, acolitados pelo líder da bancada na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), que se esfalfam para alargar o controle sobre os demais estados da região norte-nordeste. Tal engenharia política não faz sombra à hegemonia do ex-governador Jader Barbalho no Pará, bem como a crescente “liderança” do ministro Geddel Vieira Lima, na Bahia.

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Por enquanto, as vozes discordantes partiram dos senadores Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon, que de forma clara e irrespondível alfinetaram as maquinações características do partido, sempre que se trata de abocanhar fatias relevantes do poder. Infelizmente, suas excelências ficaram devendo alguns informes pontuais, como nomes, fatos, ocasiões e demais badulaques do gênero. Não faz mal, pois as revelações de ambos não deixam pedra sobre pedra da amarga realidade de que na negociação das trocas o partido sucumbiu aos apetites da mais abominável fisiologia. Entretanto, é surpreendente anotar, nesse contexto, o silêncio do ex-governador Orestes Quércia, dono da legenda peemedebista no estado de São Paulo, que desde a última eleição municipal selou compromisso público com a candidatura do governador José Serra à presidência em 2010. Quércia apoiou a reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM) e, em contrapartida será apoiado por tucanos e democratas na campanha para o Senado.

Pode-se conjeturar também que os congressos estaduais tornem ainda mais visível a divisão interna do PMDB, tendo em vista que no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná não se percebe nenhuma manifestação exacerbada pela virtual candidatura da ministra Dilma Rousseff. Ainda não se abriu mão, por completo, da candidatura própria à presidência da República, mas até nesse particular o partido se debate com uma dúvida existencial: o retorno, no tempo hábil da janela da troca de legendas, do governador Aécio Neves.

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