Desta vez não houve a mais remota possibilidade de varrer o lixo para debaixo do tapete, como tem acontecido com impressionante devoção na alta administração do País. O escarcéu ultrapassou todos os limites da lógica e a sociedade, pela enésima vez, quedou-se sem palavras diante da revelação provada pela transcrição de uma conversa telefônica de dois minutos entre o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), relator da CPI da Pedofilia no Senado e aguerrido crítico do governo Lula.

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A bomba explodiu com a publicação de reportagem na edição desta semana da revista Veja, relatando a conversa amigável entre dois próceres da República, tratando de interesses comuns e sem o menor indício de cavilações contra quem quer que seja. O material supostamente gravado por agentes da Agência Brasileira de Informações (Abin) foi entregue à revista por um servidor da própria instituição, cuja identidade foi mantida em sigilo por motivos óbvios. A reportagem diz ainda que tiveram suas conversas telefônicas bisbilhotadas, além de Mendes e Torres, o senador Garibaldi Alves Filho, presidente do Congresso Nacional, os senadores Arthur Virgilio, Tasso Jereissati e Alvaro Dias, todos do PSDB e, de quebra, o senador petista Tião Viana, os ministros Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, e José Múcio Monteiro, da Articulação Institucional, e Gilberto Carvalho, chefe de gabinete da Presidência da República.

O próprio presidente do STF, acompanhado de dois pares da Corte, foi levar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a profunda apreensão causada entre os componentes da instituição, ante a atitude descontrolada de servidores do Executivo interessados em ouvir conversas alheias de maneira ilícita, caracterizando um clima de espionagem e despertando em homens públicos de elevada responsabilidade a sensação de serem alvos de um movimento subterrâneo destinado a desestabilizar o governo e as instituições democráticas. O presidente Lula foi radical na medida profilática e na mesma canetada determinou a apuração rigorosa da verdade pela Política Federal, afastando a cúpula dirigente da Abin, dirigida pelo delegado Paulo Lacerda, até o encerramento das investigações.

A situação probante vivida pelo governo federal, uma crise que supera todas as demais registradas desde o primeiro mandato de Lula, bateu também às portas do general Jorge Félix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, em tese o mentor de todo o conjunto de atividades de inteligência e informações demandadas pelo governo. O general, constrangido com a amplitude da repercussão negativa decerto suscitada por seu estilo de comandar, colocou o cargo à disposição do presidente.

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Homem de larga experiência na investigação de ilícitos penais graves, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, tomou a iniciativa de afirmar que descobrir o autor (ou autores) dos grampos, aos quais os senadores Demóstenes Torres e Tião Viana inquinaram de “bandoleiros e criminosos”, é uma tarefa das mais difíceis. Mesmo porque quem se atreve a fazer um serviço sujo desse quilate, raramente deixa pistas. Todavia, assim como um agente ainda incógnito teve coragem de confiar a uma publicação de larga tiragem a ponta do iceberg, é admissível esperar que a meada de informações não pare de ser desenrolada.

Com que objetivos reais teriam operado os envolvidos na escutas clandestinas? Com respeito ao senador Tião Viana, diz-se que a intenção seria descobrir a forma como estaria viabilizando a candidatura à presidência do Senado, algo tão estapafúrdio que sequer merece comentários. O governo está, sem sombra de dúvida, diante de gravíssimo risco de apodrecimento interno e precisa agir com urgência para seccionar o corpo estranho. A nação quer a verdade, doa a quem doer.

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