Hélio Duque

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Conta-se que na velha Grécia dois engenheiros disputavam a honra da construção de uma grande obra em Atenas. O primeiro proferiu eloqüente discurso, entusiasmando a platéia a quem caberia a palavra final. Já se considerava o vencedor, quando o segundo disse apenas: ?Atenienses, o que ele acaba de dizer, eu vou fazer?.

A objetividade consciente do administrador ao desmistificar a retórica e diferenciar o dizer e o fazer foi fundamental. Tornou-se vencedor na disputa e no tempo certo concluiu a majestática construção, que se tornaria uma das referências da antigüidade grega.

Na administração pública brasileira, permeando por vários estados, o predomínio do dizer ao invés do fazer vem sendo uma das grandes tragédias nacionais. Não precisa de lentes de grau para  enxergar, nos últimos anos, a prevalência da retórica vazia substituindo a competência e a capacidade realizadora. Aqui, ali e acolá a falta de homens públicos com visão empreendedora e desafiadora vem se multiplicando. Prevalece a mesmice da mediocridade e o preço que a sociedade é obrigada a pagar assume, em muitos setores, níveis de calamidade.

A improvisação e o despreparo em qualquer nível de administração sempre foi e será uma trágica opção. Na área privada, ao constatar o equívoco, a correção de rumos processa-se com imediatidade. Diferentemente do que acontece na área pública, sobretudo quando prevalece a concepção de governantes truculentos. A própria burocracia profissionalizada e servidora do Estado torna-se vítima do incompetente de plantão.

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Ascende a predominância dos ?eunucos políticos?, que concordam com tudo o que o chefe quer, sendo incapazes de discordar mesmo quando convencidos do erro que se cometerá. São áulicos e aduladores, escravos do poder a qualquer preço, buscando alavancar vantagens diferenciadas. O que quase sempre leva à larga avenida da corrupção. Onde predomina a mentalidade autoritária de o governante se confundir com o Estado, desprezando a opinião pública, a terrível aliança de incompetência administrativa e incorporação de patrimônio pela via dos negócios públicos torna-se fato normalíssimo.

Nessas conjunturas, a mitomania de poder é o que prevalece. Nos governos tirânicos, a mentira ganha roupagem de verdade pela repetição. Já a verdade que é dita é sempre apresentada com semblante falso. Como na fábula da tartaruga e da lebre, a mentira pode ter pernas curtas, mas nas conjunturas doidivanas sempre é vitoriosa. O nazista Joseph Goebels, na Alemanha hitlerista, já proclamava que a mentira repetida transforma-se em verdade.

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Ante realidades com essa roupagem, a sociedade não pode e não deve assistir com impassividade. Ao invés de cruzar os braços e clamar aos céus, deve se mirar nessa extraordinária convocação do político inglês Lord Chesterton: ?Quando os homens de bem cruzam os braços, os canalhas ocupam o seu lugar?.

É no Estado de direito democrático que reside a grande e única saída para o enfrentamento dessas conjunturas adversas. Os momentos eleitorais não podem se transformar em festivais de demagogia e de populismos baratos, onde a retórica do engodo prevalece sobre a racionalidade das propostas sérias de governabilidade. Votar não pode ser apenas uma obrigação legal. Deve ser o momento de reflexão onde o que está em disputa não é apenas o candidato, mas o próprio futuro da sociedade. Vale dizer, o seu futuro e dos filhos e dos netos.

No passado, os tiranetes de província eram impostos pela ordem ditatorial. No presente, a sociedade elege governantes democraticamente para ter um único patrão: o povo. A ele deve servir, buscando com competência a construção de um tempo moderno e desenvolvido. Entre o dizer e o fazer, deve colocar na prática o ensinamento grego de mais de dois milênios. Fazer o melhor em prol do bem comum.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.