Vai longe a discussão sobre o “alcance da Lei de Anistia” – um eufemismo para que se reabram as feridas do regime militar. As ações ousadas do ministro da Justiça, Tarso Genro, e do secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, criaram constrangimento dentro do governo e agitação na sociedade civil. Por mais que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva seja de esquerda e de um partido historicamente relacionado com a resistência democrática, quem menos queria esta discussão aberta era o próprio presidente.
O presidente Lula, no seu íntimo, talvez soubesse que tal situação aconteceria em seu governo – convenhamos, até demorou. A análise dos erros e acertos da Lei de Anistia, que completará trinta anos em 2009, era provável com ministros como Vannuchi e Tarso, que passaram por torturas – e tiveram amigos e companheiros que perderam a vida nos porões do regime.
Mas terão que contar com resistências internas. Primeiro, pelo simples fato de Exército, Marinha e Aeronáutica não admitirem qualquer conversa sobre o assunto – e o ministro da Defesa, Nelson Jobim (outro resistente democrático), já se manifestou como contrário à discussão. Além disso, há muitos aliados do governo que também eram aliados dos militares entre 1964 e 1985.
Revisar a Lei de Anistia é importantíssimo. Ainda há muitos brasileiros que não receberam as devidas homenagens da nação por conta da luta pela liberdade e pela democracia. Torturados e desaparecidos que, hoje, sofrem a tortura do esquecimento. Só que é um baú difícil de ser visitado, pelas reações que ainda provoca – este ano mais, por causa da lembrança de 1968, ano da decretação do Ato Institucional 5.
Só Lula pode abrir este baú, pela força popular que tem – mas talvez não seja interessante. Tancredo Neves não faria isso se exercesse a presidência. José Sarney e Fernando Collor não fizeram força, e Fernando Henrique Cardoso, um exilado, movimentou-se nas sombras. Até porque, neste caso, a voz das sombras são mais eloqüentes que os discursos dos políticos.