Um pouco antes do final do ano passado, diante do conjunto de nações interessadas na adoção de medidas visando diminuir as emissões de gases do efeito estufa, reunido em conferência organizada pela ONU na cidade polonesa de Poznam, o Brasil anunciou um programa próprio que granjeou merecidos elogios pela seriedade dos compromissos assumidos em relação ao esforço para frear o aquecimento global.
Agora, na virada do ano, a sociedade está sendo informada pelos meios de comunicação que toda a loquacidade do plano brasileiro parecia apenas destinada a causar efeitos midiáticos a partir da citada conferência internacional, pois os cálculos indicam que nossas emissões de gases do efeito estufa resultantes da geração de energia elétrica devem triplicar nos próximos dez anos.
Para a senadora Marina Silva (PT-AC), ex-ministra do Meio Ambiente, após avaliar o impacto ruinoso dos 39,3 milhões de toneladas de gás carbônico previstos para serem lançados na atmosfera até 2017 pelas novas usinas térmicas planejadas, há uma enorme contradição com as metas internas de redução do desmatamento, ao se referir a um dos objetivos do recente Plano Nacional sobre Mudança do Clima.
A impressão é que apesar das boas intenções exibidas pelo governo brasileiro em Poznam o cenário específico tende a piorar, porquanto o País não poderá dispensar a utilização de fontes de energia mais onerosas e poluentes, caso queira evitar a desastrosa ocorrência de interrupções no fornecimento de energia elétrica. A demanda já estimada indica que o atual sistema interligado deverá ser acrescido de 81 usinas termelétricas movidas a óleo combustível (41), diesel (20), gás natural (8), biocombustíveis (7) e carvão (4).
Os dados constam no Plano Decenal de Energia (PDE), comentados pelo jornal Valor Econômico na edição de ontem. Segundo escreveu o jornalista Daniel Rittner, mesmo com a entrada em funcionamento das usinas hidrelétricas do Rio Madeira (Santo Antonio e Jirau) e Belo Monte, “a participação da fonte hídrica na matriz elétrica nacional cairá de 85,9% no início de 2008 para 75,9% em 2017”. Conforme estudos realizados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estatal ligada ao Ministério de Minas e Energia, a prioridade do governo é aumentar a capacidade instalada dos atuais 99,7 mil para 154,7 mil megawatts (MW), com a finalidade de afastar definitivamente o fantasma de déficit no abastecimento de eletricidade.
Não se sabe, ainda, a maneira com que a comunidade internacional se manifestará sobre a necessidade crucial da expansão da geração de energia elétrica no Brasil, sobretudo com a preocupante revelação de que as novas térmicas lançarão na atmosfera, ao longo da próxima década, cerca de 40 milhões de toneladas de gases do efeito estufa. Esse valor representa um aumento equivalente a 172% sobre o volume das emissões ocorridas em 2008, calculadas em 14,4 milhões de toneladas.
O governo se defende com o argumento de que as queimadas florestais, responsáveis por até três quartos das emissões, vão diminuir sensivelmente com o rigor da fiscalização para coibir em mais de 70% a derrubada ilegal de árvores na Amazônia. As autoridades arrazoam também que a participação do setor elétrico no total de emissões continuará sendo minoritária, mas ficam sem alternativa quando se descobre que as vantagens obtidas pelo meio ambiente, por exemplo, com a mistura de 3% de biocombustíveis ao diesel convencional, que evitará o despejo de 62 milhões de toneladas de dióxido de carbono em dez anos, serão anuladas por apenas 19 meses de operação das termelétricas.
Esse foi o motivo fundamental da crítica da ex-ministra Marina Silva. Ninguém ignora a dimensão monumental do problema que o governo tem de resolver, mas é um direito da sociedade esperar que as soluções não revertam em prejuízos ainda mais graves para o frágil patrimônio natural.