Israel realizou eleições para a escolha do novo Parlamento nesta terça-feira, mas a estreita vantagem obtida pelo Kadima, partido do atual primeiro-ministro Ehud Olmert e da líder e ministra das Relações Exteriores Tzipi Livni, provável indicada para chefiar o governo, ainda alimenta as dúvidas da população quanto à decisão do presidente Shimon Peres. Segundo a legislação em vigor, cabe ao presidente a responsabilidade de fazer a indicação do organizador do governo e, segundo a tradição, este sempre saiu dos quadros do partido que obteve o maior número de votos.

continua após a publicidade

O problema é que tanto o Kadima, um partido de centro, quanto o Likud, partido de direita liderado por Binyiamin Netanyahu, que já foi primeiro-ministro, festejaram vitória logo após a publicação dos resultados da boca de urna. O Kadima terá 29 ou 30 cadeiras do Parlamento, enquanto o Likud ficará com 27 ou 28 de um total de 120 membros. A vantagem de Netanyahu viria do bloco de partidos de direita, que somados alcançariam a maioria parlamentar de 63 a 64 deputados, dando margem à possibilidade teórica da formação de um governo de coalizão. Tendo em vista a maior proximidade de Netanyahu com os partidos de direita, segundo as análises, ele teria menos dificuldades para chefiar o novo governo.

Entretanto, tudo depende dos entendimentos entre o presidente Shimon Peres e os dirigentes dos partidos representados no Parlamento, que deverão estar concluídos em uma semana. É necessário não esquecer, contudo, que um primeiro-ministro de Israel jamais saiu de partido derrotado nas urnas, mesmo que a diferença do vencedor tenha sido mínima, como aconteceu na atual eleição.

Nesse sentido, aflorou com ímpeto reforçado a consideração sempre presente na conjuntura política israelense, qual seja o avanço dos partidos de direita como uma ameaça de paralisação do processo de paz no Oriente Médio. A presunção é que o fortalecimento do enclave direitista venha a constituir um inesperado entrave nas tentativas planejadas para selar a paz definitiva, já que o novo Parlamento dificilmente dará apoio à suspensão de construções nos assentamentos israelenses, primeira condição estabelecida pelos líderes palestinos para voltar à mesa de negociações.

continua após a publicidade

O equilíbrio político entre o Kadima e o Likud, ratificado nas urnas, explicitou a dimensão dos problemas que o governo chefiado pela ministra Tzipi Livni, em hipótese, teria pela frente. Entrementes, o quadro fica ainda mais difícil quando a ele se agrega, obrigatoriamente, a expansão do número de cadeiras conquistadas pelo bloco de direita. Na opinião dos analistas, qualquer que seja o novo primeiro-ministro de Israel, Livni ou Netanyahu, o governo não deverá cumprir os acordos já assinados com a Autoridade Palestina.

Não é novidade que o bloco de direita seja contrário à negociação das questões básicas relacionadas com o processo de criação de um estado palestino fronteiriço a Israel, bem como à retirada de colonos judeus dos assentamentos, transformação de Jerusalém oriental em capital do futuro estado palestino e, por último, uma solução para o problema dos refugiados palestinos.

continua após a publicidade

Argumenta-se que o resultado das eleições indica que os israelenses optaram por uma situação de paralisia, sinalizando à eventual coalizão de poder a disposição precária dos elementos concretos para caminhar na direção do acordo de paz. Não é esse, exatamente, o raciocínio de homens e mulheres de diferentes nacionalidades e ideologias políticas, que aguardam com ansiedade a resolução pacífica dos conflitos entre Israel e seus vizinhos. Deus queira que o ultranacionalista Avigdor Liberman, líder do Israel Beitenu, que elegeu 15 deputados, tenha além do claro discernimento, a visão racional da tolerância para dar guarida, no papel de parceiro privilegiado do governo a ser chefiado por Livni ou Netanyahu, a uma prática política capaz de cimentar de uma vez por todas as posições mais favoráveis ao processo de desarmamento dos espíritos, levando os semelhantes à concórdia.