O sentimento antiamericano da maioria dos 33 presidentes dos países da América Latina e Caribe, presentes às quatro reuniões de cúpula realizadas na Costa do Sauípe (Bahia), foi a nota tônica da intensa jornada de três dias que acabou evidenciando a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na região, dando lugar a uma observação até certo ponto despeitada do presidente venezuelano Hugo Chávez, na condição de declarado aspirante às loas de seus colegas. Para o pretenso revolucionário bolivariano, “o Brasil exerce uma liderança importante na região, mas não se trata de que um país seja líder. Trata-se de um conjunto de lideranças. Há uma nova América Latina”.
Um feito digno do reconhecimento geral foi a admissão de Cuba no chamado Grupo do Rio, com a presença do presidente Raul Castro, numa tardia mas eloqüente condenação aos 46 anos de bloqueio econômico e diplomático imposto pelo governo norte-americano à ilha caribenha. De resto, na apreciação feita pelo presidente brasileiro por ocasião do encerramento dos trabalhos, o “imperialismo americano” poderá ser substituído pela nova política do presidente Barack Obama, que assume no dia 20 de janeiro, cercado de bons augúrios e, sobretudo, da visão esperançosa dos povos e governantes da região.
Lula não deixou de observar judiciosamente que apenas 40 anos depois do assassinato do pastor Martin Luther King, uma das inúmeras vítimas do racismo de parte da população norte-americana, um negro foi eleito presidente da nação mais poderosa da Terra, robustecendo o anseio por mudanças para melhor no tratamento dispensado aos vizinhos situados abaixo da linha fronteiriça do Rio Grande.
Lula fez questão de enfatizar que a Cúpula da América Latina e Caribe sobre Integração e Desenvolvimento (Calc), não deve ser interpretada como coalizão de governos contra os Estados Unidos, mesmo que o presidente boliviano Evo Morales tenha aproveitado a oportunidade para propor uma solução estapafúrdia. Segundo ele, os países com assento na Calc deveriam fixar um prazo para os Estados Unidos suspenderem o bloqueio econômico sobre Cuba. Caso contrário, todos eles deveriam retirar seus embaixadores de Washington.
O arroubo nacionalista do presidente e ex-líder cocaleiro, além do constrangimento natural causado nos chefes de Estado que se caracterizam por atitudes pragmáticas e moderadas, foi enquadrado pelo presidente brasileiro que mais uma vez usou de bom senso ao recomendar prudência e diplomacia responsável, enquanto não se conhece a política de Obama para os países da América Latina e Caribe. A posição de Lula foi corroborada pelo colega mexicano, Felipe Calderon, para quem a Calc pode ser o embrião de uma nova organização de estados latino-americanos com regras próprias e soberanas, sem a interferência prejudicial dos Estados Unidos e Canadá. O México será o anfitrião da próxima cúpula em fevereiro de 2010, ano das comemorações dos 200 anos da independência, ele que foi o primeiro país da América Latina a libertar-se do domínio espanhol.
A atração da importância econômica, social e cultural do México para o âmbito da aliança que deverá constituir poderoso bloco regional, também deve ser contabilizada como um avanço expressivo, tendo em vista que nas últimas décadas o país atrelou sua política de inserção internacional aos interesses dos Estados Unidos. Num outro patamar, Lula teve de administrar a renitência sistemática dos presidentes Evo Morales (Bolívia), Fernando Lugo (Paraguai) e Rafael Correa (Equador), que fazem pesadas restrições ao pagamento das dívidas externas, das quais o Brasil também é credor. Na concepção dos três presidentes as dívidas são “ilegítimas e ilegais”, embora Correa tivesse sido drástico ao resumi-las como “empréstimos absurdos, cláusulas absurdas, juros sobre juros”. O calejado metalúrgico, que se acostumou a agir como algodão entre cristais, terá diante de si uma parada indigesta nos próximos meses.