Dinheiro suspeito

Tanto o castelo era mesmo de areia que acabou desabando, deixando mais uma vez a descoberto a estranha obsessão de determinada casta de empresários e políticos, pela utilização repulsiva de métodos pouco convencionais na doação e/ou recebimento de recursos para financiar campanhas políticas. Está aí a Operação Castelo de Areia, realizada pelo Ministério Público Federal e Polícia Federal (PF), com a finalidade de averiguar o modo de relacionamento político, se é que a expressão cabe num contexto carregado de incertezas como o atual, da empreiteira de obras públicas Camargo Corrêa, uma das maiores do País, com marcas visíveis de envolvimento de pelo menos sete das inúmeras agremiações partidárias brasileiras.

O título sintomático da operação policial, aliás, como são todos os escolhidos pela Polícia Federal para dar nome apropriado à missão específica de investigar as denúncias de irregularidades, está plenamente justificado diante dos resultados da apuração conduzida pelos agentes da PF, que desaguou na prisão de executivos de primeira linha da Camargo Corrêa, à primeira vista, responsáveis por um suposto esquema de doações de recursos financeiros “por fora” para políticos e partidos. Segundo informes da mídia, a empreiteira teria faturado R$ 16 bilhões em 2008.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva limitou-se a comentar que a ação da Polícia Federal e dos procuradores da República, em quaisquer circunstâncias, jamais deverá substituir “a função dos políticos”, argumentando que as referidas instâncias da administração pública não têm necessidade de holofotes, mas sim de agir com seriedade e eficiência. Lula fez a afirmação no evento de comemoração dos 65 anos de existência da Polícia Federal. Todavia, o ambiente partidário não teve como absorver o impacto ruinoso da bombástica repercussão de que sete partidos estão sob suspeita do recebimento de doações ilegais, a saber, PPS, PSB, PDT, DEM, PP, PMDB e PSDB. Os recursos teriam sido utilizados nas campanhas municipais do ano passado.

Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, assim como para a maioria dos cidadãos que ainda se dão à pachorra de acompanhar o cenário político nacional, é estranhável o fato de o Partido dos Trabalhadores (PT) não ter aparecido na relação exposta pela operação policial. FHC, cuja longa experiência nas lides políticas e o conhecimento das maquinações que são entretecidas ao abrigo dos subterrâneos, decerto está autorizado a emitir juízos abalizados, estranhou que a Camargo Corrêa “terá sido a única empresa grande que não deu nada ao PT”. Com inegável ironia, o ex-presidente arrematou: “O partido deveria protestar por não ter recebido nada”. Um dos líderes petistas, o deputado federal Cândido Vaccarezza (SP), saiu pela tangente mesmo admitindo que o partido tenha recebido inúmeras doações da empresa: “O problema não é de doação e, sim, de evasão de divisas”, afirmou.

A exclusão do PT da lista de partidos regalados com as doações da Camargo Corrêa serviu, entrementes, para realimentar a tese oposicionista quanto à atuação política da Polícia Federal, evidência mais uma vez amenizada pelo ministro Tarso Genro (Justiça), que escolheu pessoalmente o delegado Luiz Fernando Corrêa para chefiar a corporação. O ministro assinalou que a Operação Castelo de Areia, severamente criticada por dirigentes do PSDB e DEM, é a antítese da rumorosa Operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas. Genro recomendou aos políticos prejudicados pela operação que encaminhem pedidos de esclarecimento à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público Federal.

A operação foi realizada com base em escutas telefônicas autorizadas pelo Judiciário, das quais sobrenadou a suspeita de que empresa de elevado porte econômico se valeu do famigerado caixa 2 para operar a drenagem de recursos provenientes do ignóbil superfaturamento de obras públicas. A sociedade precisa conhecer com urgência a origem do dinheiro repassado aos partidos pela iniciativa privada e, nesse particular, o PT deve ser o primeiro a se explicar.

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