Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, é uma mulher de fibra. Passou pela luta armada, passou pelas torturas, passou pelas incoerências da política brasileira, e agora está vencendo uma séria doença. No meio disso tudo, está tocando o mais arrojado plano de desenvolvimento do Brasil desde os tempos de Juscelino Kubitschek, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). E, para completar, já foi ungida como candidata à presidência da República, pelo maior cabo eleitoral que existe no Brasil na atualidade – o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Mas ela sabe que não basta ser uma mulher de fibra. Não bastará ter passado pela luta armada, pelas torturas, pela política, pela doença. E não bastará, apesar de ajudar muito, ser a candidata de Lula. Ela precisa ser a responsável, a líder do sucesso do PAC, a administradora bem-sucedida que se soma à política capaz de ser a articuladora política.
Só falta uma coisa – o PAC dar certo. Durante a semana que passou, ela comandou a reunião que fez o sétimo balanço das obras, e “voltou a exibir um temperamento forte e incisivo na cobrança da execução das obras e no pedido para que os ministros atuem de forma coordenada. Sem citar nomes, fez cobrança em público aos assessores e respondeu de forma enfática às perguntas dos jornalistas. Em alguns momentos, demonstrou uma certa irritação e reclamou de reportagem publicada por um site na semana passada, segundo a qual somente 3% das obras do PAC estavam concluídas. Ela garantiu que 14% das obras previstas já foram entregues”, como contou a matéria da Agência Estado publicada na edição de quinta-feira de O Estado.
Após um breve período afastada dos meandros da administração federal, a ministra Dilma percebeu que terá que agir com firmeza caso queira que o PAC seja realmente cumprido. São muitas obras, muitos ministérios, empreiteiras, funcionários envolvidos. Coordenar toda essa estrutura, que além de grande é capilarizada (está por todos os cantos do País), não é tarefa simples. Lula designou sua chefe da Casa Civil justamente porque confia nela como “tocadora” de obras, o que fez com êxito quando ministra das Minas e Energia, no início do primeiro mandato do presidente – até José Dirceu trocar os pés pelas mãos na história do mensalão.
Só que, para colocar as obras nos eixos e obter dividendos políticos, Dilma terá que trabalhar e fazer os outros trabalharem. Ao mesmo tempo em que cobrará resultados, terá que lidar com muita calma, pois há muitos interesses políticos regionais envolvidos. Um exemplo é o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, que de um lado trabalha pelo PAC, de outro não quer tanto sucesso assim, que pode ajudar seus rivais na Bahia (que são, no caso, os líderes do PT naquele estado).
E, além disso, há dois estágios no Programa de Aceleração do Crescimento – um que “vence” até o final de 2010, próximo da eleição, e outro em 2014, para a Copa do Mundo. A ministra sabe disso, e sabe que ela não pode trabalhar apenas com o que tem final próximo, mas também para o futuro, que interessa para ela como política, e para seu “guru” Lula mais ainda, pois o plano perfeito do PT é Dilma vencedora em 2010 e, quatro anos mais tarde, o retorno triunfal do atual presidente.
Dilma Rousseff, portanto, tem uma tarefa das maiores pela frente. Vai sofrer pressões, vai ser acompanhada de perto pelos jornalistas, terá que administrar interesses, vontades e vaidades, terá que vencer mais um desafio na sua vida já crivada de adversidades. Se conseguir vencer mais esta etapa, ninguém poderá negar que ela será uma mulher pronta para tudo. Até para presidir o Brasil.