Às vezes, a realidade mais crua está mais perto da gente do que imaginamos. Com uma boa dose de preconceito, imaginamos que situações degradantes de trabalho e de vida não são vistas no Paraná. Afinal, somos desenvolvidos, educados, sabemos a importância da vida humana e não permitiríamos que isto acontecesse por aqui.
Mas a equipe de O Estado (a repórter Luciana Cristo e o fotógrafo Fábio Alexandre) viu isso de perto, como se fosse para nos mostrar que temos, aqui mesmo, diante de nossos olhos, situações tristes, que aviltam o que chamamos de direitos humanos. Em São Mateus do Sul, pelo menos quarenta trabalhadores do corte de madeira moram em barracões de lona sem banheiros e realizam sua atividade sem equipamentos de proteção.
As pessoas dormem em galinheiros, no chão frio. Tomam banho no rio ao lado do local do corte da madeira, comem quando os “patrões” querem, e ainda têm a alimentação descontada do salário. Quando chove, não há trabalho. O salário? Cada metro cúbico de madeira empilhada vale três reais. Para eles, o único dinheiro possível. “Não dá para chegar em casa e falar pra mulher que não tem dinheiro pra comprar leite”, disse um trabalhador explorado.
Há também menores trabalhando. Conta a reportagem: “Um deles, de 16 anos, estudou apenas até a primeira série do primeiro grau, mora em um galpão de estocagem de fumo e faz o trabalho de baldeação, que é levar a lenha de um lugar para outro”.
Para tentar acabar com esta prática terrível, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel para Erradicação do Trabalho Escravo e Degradante na Região Sul decidiu agir. E ainda bem que fez isso. A triste constatação de que há pessoas que humilham outras pessoas em troca de um lucro maior é tão cruel quanto a confirmação de que isto acontece muito perto de todos nós, paranaenses.
Este ano, completamos 120 anos da Abolição da Escravatura. Mas, por todos os cantos, em todos os estados da Federação, temos provas claras – e profundamente lamentáveis – que, na cabeça daqueles que se julgam “senhores”, ainda há seres humanos que possam ser tratados como escravos. Triste Brasil.