Ivan Schmidt
É parte do acervo comportamental do governador Roberto Requião surpreender os interlocutores, mesmo que contingentes, com alguns toques requintados de argúcia e certa freqüência a filósofos e historiadores, nos quais volta e meia encontra uma flanela para avivar seu verniz intelectual.
Todos estão lembrados da referência feita por Requião, nos debates ou quando instado a discorrer sobre o pedágio, à relação desse instituto com as origens da Revolução Francesa. Numa sondagem investigativa sobre os comentários dos historiadores que trataram do evento, o governador vislumbrou a oportunidade de conferir ares de historicidade à sua ojeriza aos negócios de qualquer espécie, sobretudo, quando pode abrigar-se sob a aura dos derradeiros quadros nacionalistas da política brasileira e argüir a defesa dos esbulhados pela concupiscência do lucro.
No que diz respeito à Revolução Francesa, o fulcro do pensamento político do governador foi nutrido pela visão linear dos privilégios reconhecidos da nobreza, segundo nos faculta perceber a autoridade intelectual de Eric J. Hobsbawn em A era das revoluções (Paz e Terra, RJ, 1998): ?A nobreza não só exasperava os sentimentos da classe média por sua bem-sucedida competição por postos oficiais, mas também corroía o próprio estado através da crescente tendência de assumir a administração central e provinciana […] usando ao máximo seus consideráveis direitos feudais para extorquir dinheiro (ou mais raramente, serviço) do campesinato?.
Por sua vez, Georges Lefebvre, no magnífico livro A Revolução Francesa (Ibrasa, SP, 1989) ratificou que o abalo que fez desmoronar o regime despótico ?foi particularmente perigoso nos campos?, onde ?o fardo dos impostos aniquilava e onde o dízimo e os recolhimentos senhoriais exasperavam?. Chegamos mais perto da cobrança de pedágio, para não desprezar a conotação dada a ela pelo governador, elencando-a como uma das causas da revolução que mudaria a história do mundo, ao ler o historiador Albert Soboul, sempre relacionado entre os mais renomados tratadistas dos épicos momentos vividos pela população francesa nos idos de 1789.
Na obra com título idêntico ao de Lefebvre (Livros Horizonte, Lisboa, 1979), Soboul introduziu uma referência direta ao tema ao comentar que ?a corvéia para as estradas adquiriu maior importância no século 18 com a extensão da rede rodoviária. Os proprietários ribeirinhos da estrada deviam, em proporção dos seus braçais, cavalos e carroças, transportar entulho, aterros e pedras. A corvéia real estabeleceu-se, pouco a pouco, de 1726 a 1736. Em 1739 foi generalizada e regularizada por um edito definitivo. Assim concebida, deu lugar a numerosos abusos e suscitou uma forte oposição?. Diante das reclamações dos usuários das estradas, porquanto a corvéia era pagável em dinheiro, foi substituída por contribuição adicional a um imposto existente na época, o chamado sexto da talha.
Trazendo o assunto para o nosso tempo, percebe-se sem nenhum esforço que a cobrança do pedágio, ao contrário do que ocorreu no período de gestação da Revolução Francesa no âmago do Terceiro Estado, as classes populares por excelência, foi acrescida a pesados impostos a muito inseridos na estrutura da carga tributária. Portanto, apresentar objeções de fundo a uma prática que tipifica evidente expropriação de recursos restantes à cidadania, depois da tosquia a que foi submetida pela impiedosa engrenagem fiscal, não é agir contra a razão.
Depois de muitos anos, afinal, o governador houve por bem revelar o que era de conhecimento geral: sua luta contra a cobrança do pedágio é filosófica e está, é forçoso reconhecer, alicerçada na composição ideológica de sua práxis política. Ao adicionar a esse caldo cultural os postulados da Carta de Puebla, na qual bispos latino-americanos expõem sua opção preferencial pelos pobres, Requião procurou uma origem pia para expressar seu horror ao rentismo.
Todavia, não será pela contínua, posto que destemida exprobação dos que se creditam ganhos fabulosos, e a própria Copel se insere na perspectiva condenável porque dá muito lucro, e a parte que redistribui em luz fraterna e outras benfeitorias é infinitesimal se comparada às vantagens anuais, que estará reivindicada em plenitude a justiça social enunciada na doutrina social da igreja. Diálogo, bom senso e espírito tolerante são também ferramentas úteis e indispensáveis.
Ivan Schmidt é jornalista.