Não sei se é a ala dos que têm surtos psicóticos ou se são apenas os doentes menos graves, que vivem tendo ataques contra eles próprios, mas não são capazes de arranhar uma mosca. De qualquer forma, o fato é que uma das alas do Hospital Psiquiátrico Palácio do Planalto está em crise, e o resultado pode ser catastrófico.
Tudo começou num sábado ensolarado, quando foi divulgada a descoberta de uma fraude nos Correios, uma das poucas instituições estatais em que ainda confiamos, envolvendo o PTB. Apesar de o governo bater o pé dizendo que não quer e não quer uma CPI para averiguar o caso, 19 deputados petistas votaram a favor da criação, junto com um monte de outros partidos aliados.
Mas o que o governo tem contra a CPI? Tudo bem que o Legislativo acha, há muito tempo, que pode dar uma de Judiciário – e vice-versa (devem ser crises de troca de identidade), mas, por enquanto, o problema nada tem a ver diretamente com Lula ou o PT. Eis a questão: seria mais um desgaste político para um governo que já está desbotado e, pior, já pensou se encontram problemas envolvendo mais gente?
E como se um sábado negro não fosse suficiente, apareceu mais uma doença no domingo, quando o governador de Rondônia resolveu colocar a boca no trombone e levar um monte de deputados para um poço sem fundo. Como ele já estava cheio de problemas, por ser acusado de formação de quadrilha e fraudes em licitações (crimes que, aliás, já viraram moda no cenário nacional. Parece que agora dá status conversar sobre isso em jantares com amigos: ?Pois é. Respondo por formação de quadrilha. Mas a família vai bem, obrigado?.), resolveu incluir na lista negra um monte de deputados. E Rondônia, então, virou estrela na mídia sul-sudeste.
Nesse momento a crise planaltiana deu claros sinais de avanço, e nosso presidente deve ter tido vontade de se internar num país distante. Isso porque as confusões rondonienses incentivaram o Superior Tribunal de Justiça a aprovar a intervenção federal no estado de Rondônia, para ver se consegue assegurar o cumprimento de uma sentença de reintegração de posse de terras no estado, que deveria ter sido feita desde 1999. E sabe o que o Executivo tem com isso?
Bem, cabe a Lula decretar a intervenção, definir a duração e indicar o interventor. Mas dificilmente o presidente fará isso, por pura questão política: a medida certamente paralisaria a promulgação de emendas. E mais: imagine a confusão que seria mais uma questão polêmica em Rondônia…
E enquanto o Executivo se estapeia com o Legislativo, num interessante caso de crise-mútua de perda de poder e personalidade, uma figura se esgueira pelas beiradas, observando tudo e não articulando nada: nosso ministro de Articulação Política, Aldo Rebelo. Em vez de ajudar a minimizar crises, manter conversas com as várias forças do Planalto e fazer de tudo para proteger a dignidade do governo (afinal, não é para articular que um ministro da articulação serve? Vai ver que, na verdade, ele é um médico de articulações e foi posto no cargo para tratar de problemas nos joelhos dos deputados. Nós é que estamos loucos!), Aldo é que precisa ser protegido.
O que mais se tem visto são especulações em torno de sua capacidade de trabalho, seu gosto pelo cargo e quem poderia substituí-lo. E, mais uma vez, o problema respinga forte no presidente, pois é ele que, vejam só, tem que aparecer para protegê-lo, falar bem de seu trabalho, reforçar apoio, etc. Aldo sofre de um caso clássico de crise de abstinência de poder. Apesar de grave, é algo bastante comum, que pode ser curado de um dia para o outro. Basta para isso que o tempo passe…
E nesse quadro de poucas doenças, mas muitos doentes, o Legislativo estaciona e não resolve mais nada, só quer saber de CPI dos Correios. No dia em que resolveram colher assinaturas para criá-la, todas as reuniões, discussões e possíveis votações foram simplesmente suspensas. A primeira seqüela já pode ser sentida: a tão sonhada votação da reforma tributária, pela Comissão Especial da Câmara, foi adiada – de novo.
?Mas os políticos estavam sob muita tensão durante todo o dia, sem condições de trabalhar?, dizem os bondosos. É mesmo? Pois se todos os brasileiros que trabalham sob tensão deixassem de exercer suas funções, teríamos um feriado sem fim, todos os dias.
Ariane Holzbach é jornalista no Rio de Janeiro.
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