Desunião compreensível

A manchete de ontem de O Estado é a seguinte: “Votação do reajuste abala relações entre PT e governo”. Assunto fartamente tratado pela imprensa, e que apareceu nesta página em alguns momentos. Mas não custa lembrar: após ameaçar com represálias os deputados da base aliada (quer dizer, evitando investimento oficial nas regiões dos políticos descontentes), o governador Roberto Requião entrou definitivamente em rota de colisão com a bancada do PT na Assembleia Legislativa. Tudo por conta do projeto de reajuste para os servidores públicos – a maioria dos deputados apresentou emendas para aumentar o índice de 6%, e o mandatário do Palácio das Araucárias não gostou. Seu porta-voz no parlamento, o líder do governo Luiz Claudio Romanelli (PMDB), fez duras declarações, mantendo a ameaça de suspender incentivos nas regiões consideradas bases eleitorais dos petistas – que, é bom lembrar, são aliados de primeira hora de Requião no governo estadual (o partido teve candidatos ao Palácio Iguaçu em 2002 e 2006, mas no segundo turno cerrou fileiras com o governador).

A repórter Elizabete Castro contou para os leitores mais da crise institucional da base de sustentação do governo do Paraná: “Romanelli disse que o governo precisa saber com quem pode contar em plenário na votação dos seus projetos. ‘A nossa avaliação é que somente podem ser prestigiados os deputados com quem podemos contar nas horas boas e difíceis. Os aliados têm que sustentar as políticas desenvolvidas pelo governo. Ou então, são oposição’, afirmou o líder. O líder do PT Péricles Mello classificou como ‘intrigas’ as ameaças feitas pelo líder do governo em entrevistas. ‘Não é intriga que pauta o PT. Quero que ele (Romanelli) diga isso na tribuna da Assembleia Legislativa. E se ele disse mesmo é um grande equívoco’, declarou Mello. Ele comentou ainda que não acredita numa mudança de tratamento de Requião com os petistas. ‘Ele conhece a postura dos deputados do PT’, afirmou”.

A desunião é compreensível. De um lado, estão os deputados petistas, que sofrem com a pressão das bases e sabem que precisam tomar uma atitude pois a eleição para a Assembleia Legislativa do Paraná está chegando. As emendas para um maior reajuste aos servidores públicos era uma clara indicação para a opinião pública, mostrando que não se concorda com tudo que o governador fala. Se Requião e PT, ao menos no Paraná, seguem o mesmo dogma, não há – pelo menos é o que se retira das últimas atitudes dos petistas – subserviência ao poder central.

Na mesma toada está o governador, trazendo seus áulicos pelo braço. Ele busca uma aliança que facilite seu caminho para o Senado (já é o favorito para uma das cadeiras na Câmara Alta), nem que para isso ele esqueça de todos os aliados que teve em doze anos no governo. E, hoje, Requião sonha em ver seu destino se encontrando com o PSDB, principalmente se o senador Alvaro Dias conseguir vencer a queda-de-braço interna e garantir seu nome como candidato ao governo. Apostando nisso, o mandatário do Palácio das Araucárias começa a se afastar do PT, aproximando-se aos poucos dos tucanos. E como os petistas não são bobos, também estão fazendo o movimento contrário – fugindo de Requião e começando a abrir caminho para uma aliança com o senador Osmar Dias (PDT).

O problema para todo mundo é que há uma hipótese que bombardeia todos os planos, principalmente do governador: uma unção do prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), como candidato ao governo, levando consigo toda a oposição em um palanque reforçado. A talvez remota possibilidade de uma parceria Beto-Osmar (com o prefeito como cabeça-de-chapa e o senador concorrendo à reeleição) causa urticária em Requião. Aí ele teria que se abraçar com o PT de volta. Isto se os petistas, magoados com o mau tratamento, não resolvam esnobar o mandatário do Palácio das Araucárias.

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