Não deixa de ser uma despedida melancólica para um dos mais exuberantes protagonistas do mundo econômico nos quase vinte anos (1986 a 2006) em que presidiu o Federal Reserve (Fed), fortim financeiro convenientemente etiquetado como o banco central da economia mais desenvolvida do planeta, os Estados Unidos. Falamos de Allan Greenspan e, nos obrigamos a acrescentar que a melancolia fica por conta do estarrecimento do antigo todo-poderoso sacerdote do neoliberalismo, que até agora não conseguiu entender por que as coisas deram errado.

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A ebulição da crise ainda não foi reduzida à escala suficiente, de modo que os congressistas norte-americanos apesar da aproximação das eleições de 4 de novembro, que vão apontar entre o democrata Barack Obama e o republicano John McCain o novo presidente, convidaram para uma autêntica sessão de descarrego, se é que se pode usar tal analogia para caracterizar a dramaticidade da situação, ninguém menos que Allan Greenspan. Como o sentimento de impotência e carência de informações se generalizou não apenas na sociedade norte-americana, mas igualmente nos demais países da economia globalizada, o remédio foi chamar às falas, literalmente, o homem que por cerca de duas décadas esteve à frente do Fed, encarnando a essência propriamente dita do chamado consenso de Washington.

Interessava aos congressistas obter da própria fonte respostas objetivas que os fizessem compreender como o mercado pode funcionar sem regras e, se não passa de uma fábula a pretensa verdade, de que uma entidade incorpórea e extremamente volátil como o mercado é dotado de capacidade endógena para reagir às crises, sem auxílio externo. Esse foi o enfoque da conversa de quatro horas entre representantes do povo no Senado e na Câmara e o homem que ditou o tom econômico dos EUA e de sua hegemônica influência sobre os demais mercados, incluindo os de países emergentes como o Brasil. O ex-presidente do Fed teve autocrítica para admitir o cometimento de alguns erros, embora tivesse insistido que esses erros foram parciais.

Os repórteres presentes à inquirição de Greenspan, dentre eles alguns correspondentes ou enviados especiais de jornais brasileiros, anotaram diversos momentos em que o “maestro”, como era conhecido, foi visivelmente acuado pelos congressistas que o questionaram sobre ouvidos moucos em relação aos sistemáticos apelos de intervenção do Fed na concessão dos empréstimos duvidosos que resultaram na bancarrota do mercado imobiliário.

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Greenspan assentiu ter-se convencido de um defeito, e esse foi ter acreditado durante quarenta anos na capacidade das instituições que fizeram os empréstimos de zelar por seus interesses próprios. Sem outro arrazoado específico na ponta da língua, o desapontado guru da economia revelou que “aqueles de nós, eu inclusive, que esperávamos que o interesse próprio das instituições de empréstimo protegesse os acionistas estão em estado de descrença e choque”.

Os pesquisadores das inconstâncias do mundo econômico garimpam os arquivos em busca de elementos para dissecar a fisiologia da crise e, vários deles voltaram a citar uma afirmação feita por Allan Greenspan em 1996, quanto à “exuberância irracional” ostensivamente exibida pelo mercado. Na verdade, a admoestação precisa ser lançada hoje na coluna de crédito do ex-presidente do Fed, cuja finalidade precípua era alertar para problemas futuros causados pela euforia do desordenado crescimento econômico. À época o J. P. Morgan estava absorvendo o quebrado Bear Stern, com o diferencial ainda não digerido pelos arautos do neoliberalismo da atual impossibilidade de livrar da falência o aparentemente sólido Lehman Brothers.

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A indulgência de Greenspan, se houver, terá como base o reconhecimento de que a sociedade lhe confiou a tarefa de manter a inflação em baixa com o maior crescimento possível. Só não se esperava que a explosão das bolhas fizesse um estrago tão assustador.