Desmanchando-se no ar

O zênite do caos aéreo, que levou à paralisação quase todos os aeroportos do País no final da semana passada, é apenas o signo malfazejo da interminável série de erros e omissões cometidos pelos governos FHC e Lula, o último em especial, com certeza o mais alheio ao compromisso republicano de governar para todos, detectando e removendo empecilhos, eliminando favoritismos e apadrinhamentos, dizendo não ao cartorialismo, enfim, ombreando-se com a sociedade em tal sinergia que a conquista do progresso e do crescimento econômico reverta em resultados apropriados pela maioria.

Ao contrário, o que se vê e se tem é um governo tíbio, sem comando ou direção, incapaz de ocultar a aparência dos desmazelados e lenientes. Um perfeito fracasso, tanto mais lastimável quanto foi recebido com o entusiasmo revigorado pela esperança de um povo crédulo no potencial da inteligência criativa que lhe possibilitou sobreviver às crises mais severas.

A fisionomia sem retoques da presidência exercida por Luiz Inácio, cuja predestinação ao exercício do poder foi, malgrado a confiança que a nação lhe atribuiu, por outro lado, falquejada por uma abortiva frustração jamais experimentada por brasileiros de todos os quadrantes.

O tratamento dado pelo presidente da República à crise político-administrativa que se arrastou por 180 dias sem que nenhuma providência concreta fosse tomada, encontrou nos últimos dias a síntese perfeita nas colunas políticas dos principais jornais. É como se seus titulares tivessem previamente combinado a linha básica dos comentários, de sorte que não houvesse entre eles a menor discordância. É como se um grupo de pintores fosse desafiado a retratar uma cena comum, proibidos de olhar o que faziam os demais. Mesmo com as diferenças de estilo ou visão peculiar, a paisagem transporta para a tela haveria de guardar os traços fundamentais.

Assim, o apagão aéreo colocou o presidente sob o crivo dos principais analistas e o balanço não lhe sorriu. Teresa Cruvinel escreveu n?O Globo de quinta-feira: ?É óbvio que Lula cometeu um grande equívoco, subestimando a questão hierárquica com uma visão sindical do problema. Não foi a primeira vez que se meteu em grandes confusões e teve que recuar. Em todas, faltou-lhe o aconselhamento correto de auxiliares mais próximos, em sua maioria muito reverentes, mais dispostos a concordar que a ponderar?.

No mesmo dia e no mesmo jornal comentou Merval Pereira: ?Repetindo o erro inicial do governo Fernando Henrique de nomear um político para a função (Defesa), o presidente Lula está permitindo que os militares continuem ditando o ritmo da transição, que não se completa nunca. E que regride a cada crise como a do apagão aéreo. A desmilitarização dos setores de segurança não pode ser vista como represália, mas como um avanço institucional do País?.

No Estadão a pena é de Dora Kramer: ?Que o governo errou, e errou feio ao menosprezar os efeitos de uma crise, achando que o que não concerne aos mais pobres não é problema do governo Lula, até os aliados do presidente reconhecem. A responsabilidade pelo passivo de inépcia está estabelecida, agora é olhar para a frente. Mas olhar adiante não implica desconsiderar a realidade. Esta não autoriza minimamente a tranqüilidade dos passageiros, seja no que tange a horários de partidas e chegadas, seja em relação à segurança dos vôos. A confiabilidade do sistema está solapada e nada, além de discursos e garantias de oratória, foi dito ou demonstrado para se pensar em recuperação?.

E para concluir, Maria Inês Nassif, no Valor, sobre ?a embrulhada e tanto? da crise dos controladores de vôo, com a desautorização presidencial, nos EUA, da prisão dos líderes do motim: ?Complicou mais ainda com a entrada em cena de um ministro civil, Paulo Bernardo, para negociar com os controladores. E tornou-se uma Babel quando Lula, de volta, desautorizou as desautorizações anteriores e desfez acordos feitos?.

Como dizia Armando Nogueira, é demais para um pobre marquês…

Ivan Schmidt é jornalista.

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