Ontem talvez tenha terminado a primeira parte da overdose da televisão sobre o “seqüestro de Santo André”, a tragédia protagonizada por Lindemberg Alves, que manteve sob cárcere privado as jovens Nayara Rodrigues e Eloá Cristina Pimentel, esta a ex-namorada do rapaz de 22 anos. Após mais de cem horas de tensão, a polícia invadiu o local e Lindemberg atirou nas meninas, ferindo Nayara e matando Eloá. Ontem, ela foi sepultada no ABC paulista, com a cerimônia sendo acompanhada por cerca de dez mil pessoas.

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Quem não estava lá não perdeu nada. As emissoras de TV acompanharam todos os passos da tragédia, desde seu início na semana passada até o último adeus a Eloá. Programações foram interrompidas, jornalistas foram mobilizados e um batalhão de técnicos colaborou para a realização de uma longa cobertura Globo, Record, SBT, Bandeirantes e Rede TV! ficaram por períodos ininterruptos acompanhando o caso.

E repetiram a dose ontem.

E, por conta disso, houve um desespero televisivo. No afã de informar mais (e não melhor) que a concorrência, as emissoras promoveram um triste espetáculo – que foi repercutido, em escala menor, nas emissoras regionais, como no Paraná. Chegou-se ao ápice quando a apresentadora Sônia Abrão, da Rede TV!, conseguiu o telefone de Lindemberg e ficou falando com o seqüestrador para ganhar audiência. Enquanto isso, os negociadores da Polícia Militar de São Paulo ouviam somente o tom de ocupado ao telefone.

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Foi mais uma prova da falta de capacidade de nossas emissoras de TV em levar informação com serenidade. Apresentadores sensacionalistas e repórteres despreparados contribuíram para a dramatização do caso, que teve o agravante de facilitar a vida de Lindemberg, que via tudo que acontecia ao redor do apartamento pela TV. Não foi à toa que ele exigiu tanto que a energia não fosse cortada.

A televisão – a mídia em geral – é responsável pelo triste desfecho do caso, com a morte de Eloá. Mesmo assim, nada muda, pois a audiência vale mais do que a ética jornalística.

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