Desenvolvimento estagnado

Nos últimos 20 anos, após a redemocratização, sucessivos governos brasileiros foram incapazes de formatar um projeto nacional de desenvolvimento. A economia brasileira vive uma clara estagnação de duas décadas. E o reflexo é terrível na vida e no cotidiano dos brasileiros. O desemprego, a violência, a falta de perspectivas levam a um quase desespero.

O pensamento único colonizado determinou a interdição de se pensar e projetar o País em um projeto nacional de médio e longo prazos. Como se isso fosse incompatível com a realidade de um mundo globalizado. A desqualificação da tese se fundamenta em argumento falso. Devemos buscar e nos integrar na realidade globalizante, sem abrir mão de construir um projeto de desenvolvimento nacional. Não há incompatibilidade. Ao contrário, todas as nações em vias de desenvolvimento perseguem com rigor, nesse início de século XXI, projetos nacionais.

Da Ásia vem o exemplo dos extraordinários fluxos de desenvolvimento, que países como China, Índia, Coréia do Sul, Malásia, Indonésia têm fundamentado em projetos nacionais. Com anterioridade, o Japão fora pioneiro. A África do Sul, pós-Mandela, igualmente persegue o seu. E em outro estágio a Rússia, pós-comunismo, no governo de Putin, implanta o seu projeto nacional.

Enquanto isso, no Brasil, falar em um projeto nacional que o remeta a um reencontro com o seu futuro passou a ser assunto proibido. Administra-se o cotidiano sem criatividade. Persegue-se um dia a dia medíocre. Mediocridade que se alarga pelas administrações estaduais.

Nos últimos 10 anos, a partir do Plano Real e com a eleição de Fernando Henrique, pela manutenção de taxas de juros reais absurdas aliadas a déficits fiscais crescentes, a dívida interna explodiu. A isso acrescente-se a escalada tributária que pulou de 26% para 35% do PIB. A financeirização da política econômica foi a tônica. Os recursos da privatização foram alocados para o pagamento das dívidas.

A partir de 2003, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, nada mudou. A continuidade da política econômica foi aprofundada. O desenvolvimentismo pregado foi para as calendas gregas.

Enquanto isso, a industrialização vem conhecendo indiscutível declínio, com reflexos gravíssimos. O desemprego estrutural mantém um nível acima dos 11%. O padrão de investimento industrial encontra obstáculos irremovíveis nas indecentes taxas de juros. A política econômica malanista-palocciana não tem compromisso com o desenvolvimentismo.

Recentemente, os tecnocratas do Ministério da Fazenda propuseram a redução das tarifas industriais, que abriria de vez a economia brasileira para os bens importados. Enquanto isso, no Senado dos EUA tramita projeto destinado a taxar em 27,5% os bens industriais originários da China. Em relação a esse país, o Brasil mandou a Pequim o ministro Luiz Furlan para convencer os chineses a reduzir as suas exportações, com crescimento de 47% ao ano. Já as exportações brasileiras das commodities agrícolas e minerais destinados à China tiveram crescimento de 6%.

Torna-se oportuno alertar que as commodities agrícolas e minerais que vêm garantindo expressivos saldos na balança comercial brasileira são uma faca de dois gumes. A euforia que esse segmento produtivo gera em determinados momentos não fornece segurança para nenhum projeto de nação de médio ou de longo prazo.

A própria formação histórica da economia brasileira serve como balizador para o observador atento aos modelos de desenvolvimento que deram certo. O setor primário da economia não é garantidor de nenhum projeto sustentado de desenvolvimento.

É um setor importante na complementaridade econômica da vida nacional. O Brasil é dotado de inegável privilégio territorial e larga fronteira agrícola, onde as commodities devem ser apoiadas e estimuladas. Jamais acreditar que o desenvolvimento deve se basear nessa esfera produtiva.

O Brasil precisa de governos com visão de futuro e não de administradores das demandas cotidianas. Como vem ocorrendo nos últimos 20 anos. Lamentável e entristecedor.

Hélio Duque é ex-deputado federal.

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