O governo fez o que pôde não para esconder, mas para minimizar o impacto da revelação, embora não lhe restasse saída mais honrosa senão admitir a queda do emprego formal em dezembro, especialmente no setor industrial. Mesmo que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tenha anunciado apenas o percentual da queda registrada em dezembro sobre os números relativos a novembro (0,6%), o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, calculava um rombo equivalente a 600 mil empregos perdidos no último mês de 2008. Dessa forma, o País fechou o ano com a geração de 1,5 milhão de novos postos de trabalho, quando a meta estimada era ultrapassar 2 milhões de empregos. Infelizmente, os planos foram atropelados pelo recrudescimento da crise financeira global.
A piora do cenário, no entanto, ainda poderá se agravar nas próximas semanas, tendo em vista que a maioria dos grandes grupos industriais não descarta a probabilidade do crescimento do número das demissões, a depender da perspectiva dos dados referentes à produção, vendas, margem líquida e acesso a financiamentos ao longo do primeiro trimestre.
O maior volume de dispensas teve lugar nos setores de bens de consumo duráveis, tais como eletroeletrônicos e eletrodomésticos, mas também foi sentido com intensidade na construção civil, papel, celulose, couro, madeira e agroindústrias, setores altamente prejudicados pela retração da demanda e comprometimento de caixa em função da crise. Estão ainda no chamado “grupo de risco” do desemprego em massa, as montadoras de veículos automotivos, as indústrias siderúrgicas, além dos setores de autopeças, máquinas e equipamentos que, no conjunto, prenunciavam o acúmulo de adversidades no final do ano passado.
Para o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, professor da Unicamp, nenhum setor conseguirá sair ileso da crise, “mas certamente os que dependem do crédito e apresentam redução de demanda estarão mais propensos a fazer demissões neste início de ano”. Contudo, a situação ainda não parece tão ameaçadora nos segmentos ligados a serviços essenciais e produtos básicos, como alimentação, saúde, educação, água e esgotos e energia, que pelo visto deverão contornar a crise sem alterações de vulto na questão do emprego.
Na visão dos dirigentes das centrais sindicais mais representativas, a proporção do desemprego em dezembro assumiu a característica de autêntico desastre na história recente do mercado de trabalho. A perda de 600 mil vagas é o dobro da média normalmente registrada nesta época do ano pelo Ministério do Trabalho, mediante o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Há um ano, os dados oficiais davam conta da extinção de 319,4 mil postos de trabalho, aliás, resultado bastante parecido com o do final de 2006. Durante os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o pior dezembro para o emprego havia ocorrido em 2004 com o fechamento de 352,1 mil vagas.
Uma tentativa de explicar o funesto revés da demissão de 600 mil trabalhadores industriais foi elaborada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base nas informações do próprio setor sobre excesso de estoques e queda nas vendas para quase um terço da indústria nacional. Destarte, para a maioria dos setores foi impossível sustar a tendência de diminuir sensivelmente o quadro de empregados. O governo tem feito sua parte ao anunciar medidas de desoneração do setor automotivo, por exemplo, um dos mais atingidos pela crise financeira e cuja cadeia produtiva é responsável por grande número de postos de trabalho.
O próximo setor a ser beneficiado por incentivos do governo é a construção civil, sabidamente uma das atividades econômicas que mais depende de mão-de-obra. O plano é desonerar o material de construção e elevar o valor financiado da casa própria com recursos depositados no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), além de outras linhas de financiamentos. Mãos à obra.