Desafios de H

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda parece aferrado à intenção revelada algumas semanas atrás, de evitar visitas às cidades onde mais de um candidato a prefeito pertençam aos partidos de sua base de apoio no Congresso Nacional. Contudo, diante da recepção pouco animadora que muitos candidatos estão recebendo dos eleitores, é provável que os consultores políticos de sua excelência o convençam da necessidade de reavaliar a decisão e sair País a fora com a missão específica de contribuir para a arrancada de algumas campanhas que ainda não deram mostras de vigor. Por enquanto, o primeiro sinal concreto emitido de Brasília informa que Lula deverá gravar participações nos programas eleitorais em apoio a candidatos petistas, nas cidades onde o confronto direto com o PSDB estiver mais acirrado.

Caso a orientação de momento sofra alteração de rumo, Curitiba decerto será uma das primeiras praças programadas para receber a visita de Lula, tendo em vista as chances ainda reduzidas da candidata Gleisi Hoffmann evoluir nas pesquisas de intenção de voto e se aproximar de Beto Richa, embalado num “sprint” espetacular em todas as sondagens divulgadas até agora. Não será de estranhar que o próprio Lula mostre o desejo de vir a Curitiba, em primeiro lugar porque a conquista da administração municipal é um plano antigo do PT como parte da estratégia de preparar o terreno para o esperado desembarque no Palácio Iguaçu, mas pelo fato da candidata ser mulher do ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, um dos remanescentes do antigo núcleo duro do governo e conselheiro próximo do presidente e, ainda, porque Gleisi mesma integrou o grupo de coordenação do primeiro governo ao lado da futura ministra Dilma Rousseff, nomeada então para a diretoria financeira da Itaipu Binacional.

Diante disso, pode-se afirmar, sem a menor dúvida, que Gleisi é um dos currículos mais destacados na avariada constelação petista, e por esse motivo superveniente não deverá ficar à margem de um esforço especial, cujo protagonista terá de ser o presidente da República, liderança inconteste do partido apesar da profunda corrosão da propalada ética e transparência na política, causada pelo envolvimento da cúpula na manipulação de recursos financeiros oriundos de trampolinagens que motivaram o volumoso processo ora julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A diferença entre os percentuais de voto hoje ostentados por Beto e Gleisi é alarmante, para dizer o mínimo. Tendo em vista que a campanha terá pouco mais de quatro semanas de duração, os estrategistas da candidata do PT estão diante de um gigantesco desafio, qual seja o de encontrar os argumentos para fazer com que Gleisi volte a ter o retumbante desempenho da última eleição para o Senado, quando quase chegou à vitória. Na verdade, os cenários são absolutamente diferentes, pois se trata agora duma eleição municipal em que idiossincrasias, paixões políticas e preferências pessoais exercem uma influência mais poderosa sobre o imaginário popular. Para se aproximar de Beto, a ponto de sonhar com o segundo turno, a candidata petista seria obrigada a correr contra o relógio e fazer das tripas coração para triplicar seu percentual e, numa façanha memorável, subtrair essa montanha de votos do cabedal do prefeito, sem que este seja capaz de demonstrar a mais ínfima reação. A tarefa de Gleisi pode se comparar aos desafios do mitológico Hércules.

No quadro de situações eleitorais o PT nada com largas braçadas em São Paulo, onde a candidata Marta Suplicy, supera por 41% a 24% das intenções de voto o tucano Geraldo Alckmin, segundo a última pesquisa Datafolha. O atual prefeito e candidato à reeleição, Gilberto Kassab (DEM), por força de uma das peculiaridades da esquizofrênica política brasileira, apoiado pelo constrangido governador José Serra, amarga o terceiro lugar embora alimente a perspectiva de crescer na reta final. Aqui e acolá, os devaneios são possíveis.

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